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16/06/2018

Pediu e chorou


 – Orson Peter Carrara

Em declaração emocionada aquele homem aproximou-se bem devagar e pediu. Estava atônito, aflito, não sabia que rumo tomar. Esperava-se, óbvio, que ele pedisse dinheiro para completar a passagem – como é tão comum – ou solicitasse algum alimento. Ou mesmo alegasse enfermidade de filho ou esposa. Nada disso!
Apenas pediu para ser ouvido. Não desejava objetos, roupas ou dinheiro, nem mesmo alimentos. Apenas desejava ser ouvido. Desejava apenas a companhia de outro ser humano para abrir o coração. E começou a falar.
Disse da solidão que sentia. Falou que sua aparência simples talvez fosse a causa da indiferença alheia. Sua barba por fazer, suas roupas e calçados surrados e mesmo por não estar empregado, por não possuir família, talvez causassem a distância com outros seres humanos. Sentou na sarjeta e chorou. Chorou não de sofrimento ou de fome, chorou de emoção porque alguém se dispôs a simplesmente ouvi-lo.
E o que falou? Disse apenas que se sentia muito só. Que não lhe faltava comida, pois muita gente lhe entregava pratos prontos, lhe levava roupas e agasalhos, lhe fornecia água e mesmo algum dinheiro, lhe pagavam lanches vez por outra, mas ninguém parava para conversar com ele…
O episódio comoveu. Ele remete à necessidade do calor humano, muito além de doações que satisfaçam a fome ou o frio do corpo. Fica distante da simples doação de dinheiro, de objetos ou roupas. Ele pede simplesmente a atenção de olhar nos olhos, de oferecer tempo, ainda que breve, para ouvir o sentimento daquele que procura.
Verdade seja dita. Ainda somos muito indiferentes uns com os outros. Optamos mais pela crítica do que pela observação atenta de sentir a necessidade real de quem está à nossa volta, de quem nos procura. Não paramos, por pressa, para olhar nos olhos ou simplesmente raciocinar sobre o que o outro está dizendo. Temos pressa de dizer ou ouvir o que nos interessa…
Na verdade, fala-se em solidariedade, em caridade. Mas solidariedade e caridade estão mais no gesto do que no fato. Caridade é sentir. De nada adianta envolver-se com muitas iniciativas e permanecer irritado, contrariado. De nada adianta fazer por obrigação. O ideal, o correto, é fazer com amor, por amor.
E este fazer com amor ou por amor, é sentir. É sentir o que se faz. Sentir-se bem em estar presente, em participar, em poder colaborar.
Aliás, por falar em colaborar, a cooperação é lei da vida. Nada se faz isoladamente. Todos precisamos uns dos outros, muito mais do que imaginamos. E isto sugere a atenção que podemos nos dispensar mutuamente.
Atenção que muitas vezes é sinônimo apenas de ouvir. Como no caso relatado, verídico e comovente.
Já imaginou o leitor alguém sentar-se e chorar apenas porque alguém se dispôs a ouvi-lo. Quanta indiferença não sofreu? Quanto desprezo experimentou?
Aí ficamos a pensar em nossa pequenez! Ainda guardamos tanta arrogância interior! Para quê? Não é melhor assumirmos nossa condição de seres humanos…?!

08/06/2018

Em qual escola?


 – Orson Peter Carrara

Imagine uma família que se mudou há pouco para uma nova cidade e resolveu visitar as duas únicas escolas existentes no lugar para decidir em qual delas matricularia seu filho.
Na primeira visitada, o diretor explicou que lá, a criança estuda durante todo o ano e, no final do período, fará um teste de avaliação. Se for aprovada, irá, no ano seguinte, para uma classe especial, com todos os alunos que se dedicaram, formando uma classe de elite. Se for reprovada, a escola manterá a criança trancada em uma sala, para sempre, com os demais reprovados. E nem os pais jamais poderão ver os filhos. Eles nunca mais terão outra chance.
Na segunda escola visitada, os pais verificam que o sistema é diferente. Ao final do ano, as crianças aprovadas também irão para uma classe mais avançada, prosseguindo os estudos. As que forem reprovadas repetirão o ano, tendo que se submeter novamente aos ensinos e aos testes nos quais fracassaram, tantas vezes quantas forem necessárias.
Agora é fácil raciocinar em qual escola os pais matriculariam seu filho. É de se duvidar que possa existir algum pai ou qualquer pessoa no mundo que optasse pelo ridículo da primeira escola. Como alguém teria coragem de expor o próprio filho a regime tão cruel?
Ora, se nós, os pais humanos, não aceitaríamos tal método absurdo de avaliação e punição, será que Deus, que é infinitamente superior a nós, bondoso e justo, onipotente, inteligência suprema do Universo e causa de tudo, usaria esse método injusto e cruel? Isso é inadmissível!
Como podemos comparar Deus às nossas mediocridades e supô-lo cruel e injusto? Sim, porque uma única chance é inviável e pequena demais, considerando os extremos da vida humana e as oportunidades tão variadas e distantes entre todos.
Objetivo da escola é ensinar e não punir. O método da segunda escola é, sem dúvida nenhuma, superior. A primeira escola demonstra um perfil intolerante, vingativo, punitivo; a segunda escola apresenta uma didática tolerante, sábia, educadora e, ao mesmo tempo, infinitamente justa, abrindo e renovando contínuas oportunidades de aprendizado, reparação e continuidade do progresso.
Pensando nos extremos humanos, nas dificuldades e diferenças tão gritantes, nas oportunidades tão variadas, nas capacidades e deficiências de toda ordem, como pensar num Deus parcial, intolerante e injusto diante de quadros que tanto fazem pensar?
E, considere-se ainda, que nos casos dos aprovados na primeira fase, poderão sofrer reprovação em fase posterior. E aí como consertamos isso?
Esta pequena reflexão, retirada de livro ainda inédito nos contos do amigo Felinto Elízio, de Maceió-AL, deve ser muito bem analisada. Nada mais acrescentamos, deixando o leitor refletir sobre o que foi exposto. Ninguém é obrigado a aceitar a ideia aqui exposta, mas também ninguém pode desprezar, em sã consciência, a lógica de tais comparações e argumentos. Basta pensar um pouco…
A escola é a própria vida. Qual a destinação depois?

29/05/2018

E eu com isto? Será mesmo?


 – Orson Peter Carrara

O relato que trazemos esta semana é bem conhecido. Já foi divulgado por meios diversos em diferentes épocas, mas continua atual e merece ser novamente veiculado. Ele é daquele tempo em que a imaginação humana, para educar e entreter coloca os animais a conversarem, a dialogarem como se humanos fossem. Ao lado desse recurso, porém, o relato traduz bem a situação atual do mundo e a extrema necessidade de nos voltarmos atenção mútua uns aos outros, sem desprezo para com ninguém, assumindo atitudes solidárias.
Numa bela casa, localizada na zona rural, a proprietária comprou uma ratoeira para capturar o rato que passeava à noite pelos cômodos e importunando os moradores. O rato ficou preocupado e procurou a galinha relatando suas angústias com a presença da ratoeira. A galinha afirmou que nada podia fazer porque era uma galinha, informando “E eu com isto? “.
O rato resolveu então procurar o porco com a mesma angústia. Recebeu a mesma resposta: “E eu com isto”? Mas não desistiu. Resolveu procurar o boi. O boi, embora mais amigo, disse-lhe que não tinha como ajudá-lo, mas também afirmou: “Não posso fazer nada. O que tenho eu a ver com isso?”
Naquela noite o rato acordou sobressaltado, afinal a ratoeira funcionou com estrondo. Saiu para ver e verificou que uma cobra havia entrado na casa e sido presa pela ratoeira. A dona da casa levantou-se com o barulho, no escuro, aproximou-se da ratoeira e foi picada pela cobra.
Febre alta, dores, o médico compareceu e verificou a gravidade da situação. Receitou uma canja de galinha. E a galinha perdeu a vida… Mas não adiantou, a mulher morreu.
Para atender a refeição dos parentes que vieram ao velório, o dono do sítio matou o porco. E como a notícia se espalhou e nos dias seguintes muitos outros parentes vieram, ele precisou também matar o boi para a refeição de tanta gente…
Conclusão: todos aqueles que disseram “e eu com isto?” ficaram envolvidos com a questão do rato e morreram.
Não é o mesmo que está acontecendo com a sociedade brasileira?
O atual quadro, possivelmente manipulado por interesses outros, arquitetado com perversidade – não o quadro em si, mas especialmente seus desdobramentos e infiltrações – enquadra-se perfeitamente no questionamento.
Por isso, para mudar o mundo, não há outra saída senão a solidariedade.
Todos: pessoas físicas, autoridades e instituições, precisamos estar permanentemente preocupados em resgatar os princípios de dignidade, honradez e educação das novas gerações. E isso significa também sacrifício, renúncia, empatia.
Ora, eis a solução das dificuldades atualmente existentes. E considere-se que o resgate dos princípios de dignidade e honradez comportam outras tantas abordagens.
Mas fiquemos com uma única: qualquer criatura merece respeito. Seja quem for… É o princípio básico do “amai-vos uns aos outros”. É preciso acrescentar algo mais?

24/05/2018

Momento brasileiro


 – Orson Peter Carrara
Diante de crimes hediondos, suicídios, tragédias provocadas (como atentados e sequestros dramáticos), e mesmo a insensibilidade reinante no governo diante da realidade brasileira, a perplexidade domina os círculos da sociedade humana.
É importante, de início, já informar: ninguém nasceu predestinado a matar (não se mata apenas com armas) ou a matar-se. Matar ou matar-se são resultantes da liberdade de agir. Estamos todos destinados ao progresso e o desajuste das emoções, do equilíbrio, é o grande responsável por tais tragédias. Estamos absolutamente convidados à harmonia na convivência, à solidariedade nas iniciativas. Da mesma forma, o dever dos que estão investidos de poder é usar a política em sua devida finalidade: gerir o tesouro nacional em favor da coletividade do país. A corrupção, em todos os níveis igualmente é um atentato à vida.
Referida liberdade de decisão – seja no caso dos crimes em geral ou mesmo numa gestão de poder –, no entanto, nos sujeita a reparações que virão a seu tempo. Isso por uma razão muito simples: somos responsáveis pelo que fazemos. A vida e suas leis determinam essa responsabilidade intransferível, deixando bem claro que toda lesão que causamos a nós mesmos ou a terceiros teremos que reparar. Não é castigo, mas apenas conseqüência. Isso vale nesses dramas que envolvem famílias ou na administração de valores que envolvem toda a sociedade.
E as vítimas? Como ficam essas pessoas? Por que sofrem atentados e se tornam vítimas de crimes passionais, etc? E mesmo uma nação enfrentando mal uso do poder com a corrupção reinante? Podemos acrescentar outras questões: Por que Deus permite? Por que uns se livram inesperadamente de determinados perigos, enquanto outros deles são vítimas? Por que ocorrem com uns e com outros não? Qual o critério para todas essas situações? E também, claro, por que os abusos do poder ou a insensibilidade gerada pelo egoísmo e pelo império do materialismo?
Apesar da dor e sofrimentos decorrentes, e da não justificativa – sob qualquer pretexto – de gestos que violentem a vida, as chamadas vítimas enquadram-se em quadros de aprendizados necessários ou de reparações conscienciais perante si mesmos, envolvendo, é claro, os próprios familiares. Racioncínio também cabível nos aprendizados de uma nação, como é o nosso caso, onde ainda negociamos os votos ou somos seduzidos por interesses que violentam os reais objetivos da pátria.
Por outro lado, os autores – apesar de equivocados e cruéis – são dignos de piedade, uma vez que enfermos. Quem agride está doente, desequilibrado na emoção e necessitado de auxílio, compreensão, tolerância e, mais ainda, de perdão. Inclusive na indiferença ou omissão do cargo investido, acrescente-se.
Cristãos que nos consideramos, sem importar a denominação religiosa que adotamos, a postura solicitada em momentos difíceis como o agora enfrentando pela mentalidade brasileira, é de compaixão com agressores e vítimas. Todos são dignos da misericórdia que norteia o amor ao próximo. A situação de quem agride é muito pior do que quem é agredido. O agredido (não se restrinja aqui a nomenclatura à agressão física) já se liberta de pendências que aguardavam o momento difícil ou faz importantes aprendizados; o agressor, por sua vez, abre períodos longos, no futuro, de arrependimentos e reparações que lhe custarão dores e sofrimentos. Nada justifica a crueldade, mesmo que seja por indiferença ou omissão. Sua ocorrência coloca à mostra nossas carências e enfermidades morais expostas, demonstrando a necessidade do quanto ainda precisamos fazer uns pelos outros.Não podemos julgar. Não temos competência para isso. O histórico divulgado pela mídia já demonstra por si só as carências expostas, entre tantos outros fatos lamentáveis. Mas há a bagagem que não vemos…O momento é de vibrações e preces para que todos tenhamos equilíbrio. Todos somos filhos de Deus…

17/05/2018

Crueldade contra animais


 – Orson Peter Carrara

A crueldade contra animais está também entre as situações que muito me constrangem. Embora igualmente me alimente ainda de carne animal, desde muito me dói o coração em ver as humilhações e sofrimentos que nós, humanos, ainda somos capazes de submeter os animais.

É triste verificar que muitas cidades estão contaminadas por este mal e ainda submeta os animais ao horrível espetáculo das conhecidas festas populares que os submetem a sofrimentos. Nada contra peões, nada contra manifestações populares de alegria e festa. Mas é cruel pensar nos sofrimentos impostos aos pobres animais, submetidos aos caprichos humanos.
Ainda que a alimentação de carne ainda seja uma necessidade física e até cultural, algumas pessoas já conseguiram dispensar o consumo desse produto alimentício e se declaram vegetarianos. Eu ainda não consegui, mas é lamentável o espetáculo desses eventos que maltratam animais.
O assunto é antigo, já gerou disputas judiciais, encontra gente pró e contra em todo lugar e legislação específica já foi concentrada para evitar tais ocorrências. Inclusive, por outro lado, tais festas são geradoras de recursos para muitas instituições. E muitos esforçados peões se entregam com afinco a tais realizações, gerando vibração e alegria em todo o público.
Mas, convenhamos, não é melhor rever isso. Nem digo proibir, pois que é uma festa popular, mas agirmos com mais coerência em tais eventos, dispensando e aí, proibindo sim, com fiscalização, qualquer método que sujeite os animais ao sofrimento e às crueldades por capricho humano.
Não sou especialista no assunto, não tenho experiência com animais e não sou crítico de quem a eles se dedica, mas quando vejo publicidade de tais eventos o coração entristece. Com tudo que já se sabe sobre o assunto, as imagens já mostradas pela internet, os argumentos apresentados pelas ONGs defensoras dos animais, já é hora para pensar no assunto com mais reflexão.
Os animais não são máquinas nem brinquedos de diversão. Eles sentem também. Sentem dor, saudade, gratidão. Ou o leitor discorda disso?
Também geram seus filhotes, possuem sangue que circula, possuem órgãos que funcionam iguais aos nossos e formam um universo de seres que auxiliam – e muito – a vida humana. Como sacrificá-los por capricho? Como submetê-los a crueldades?
Sugiro ao leitor interessado no assunto aprofundar-se mais na questão dos animais, sob o ponto de vista da alma dos animais. Entre eles, procure o livro “Gênese da Alma”, de Cairbar Schutel, para encontrar-se com exemplos, fatos e narrativas envolvendo animais e que bem dizem da realidade desses seres que também são filhos de Deus. Trazem consigo a tarefa de auxiliar as criaturas humanas, inclusive na alimentação, como tão comumente usada em todos os tempos. Todavia, submetê-los a crueldades aí a questão já é outra…
E pior é que não é apenas nas conhecidas festas populares que isto acontece, mas no cotidiano da vida humana, onde as mais diversas perversidades são praticadas contra esses indefesos seres…

09/05/2018

Amor natural, mas também intelectual



Orson Peter Carrara

Tomás de Aquino (1225-1274), filósofo e teólogo italiano, é considerado a figura mais importante da filosofia escolástica e um dos teólogos mais notáveis do Catolicismo. Foi canonizado pelo Papa João XXII, em 1323; em 1567, o Papa Pio V proclamou-o Doutor da Igreja.
Pois entre os pensamentos do grande Tomás de Aquino, figura a ideia que ele qualificou de Amor Natural e Amor Intelectual, para definir e estudar o Amor.

Essa divisão em dois pontos, segundo o filósofo, surge, no primeiro caso, do amor natural, da capacidade inata de todo ser humano na busca do afeto, na tendência ou aptidão natural na conquista do amor. Já no caso do amor intelectual, a questão se volta para a vontade de amar, para o querer ir em busca do amor. Notem a diferença: no primeiro caso, aptidão natural; no segundo, a iniciativa de ir em busca.

A aptidão natural já está no ser. No desejo e vontade, que requer a iniciativa e esforço, a situação é outra. Ocorre que na aptidão natural pode haver acomodação, preguiça; no segundo caso, porque intelectual, há movimentação de ideias e forças para alcance do objetivo.

O amor, por sua vez, confundido em todas as épocas com visões distintas (a depender do estágio moral e intelectual em que se coloca a pessoa), transcende o aspecto sensual, físico, de aparência, de tempo, espaço ou lugar. Ele está muito acima das precárias e temporárias condições humanas, para situar-se realmente no amor em sua verdadeira natureza: o amor ao próximo. Sim, porque somente amando ao próximo alcançaremos o sentido autêntico da vida.

O amor é confundido com paixão, que passa com o tempo, a idade ou outras condições. Se sofre abalos com os melindres, orgulho ferido, traições, já não é amor… Se chega a abater-se diante da ingratidão, do abandono, ainda não é amor. O amor verdadeiro aceita o outro como ele é, porque o compreende, o aceita, justamente porque se ama. Isto é o amor, que vai socorrer a necessidade do outro, que solidariza-se com a dificuldade alheia. Se é um sentimento que fica bem somente quando não nos contraria, já não é amor, mas egoísmo.

Por isso, o amor transcende a relação homem-mulher, situando-se além desta condição, já que não distingue diferenças, simplesmente ama. E quem ama, compreende, perdoa, aceita. E, curiosamente, embora o amor transcenda a relação homem-mulher, também pode ser exercitado entre cônjuges, amigos, irmãos, em família, ou entre quaisquer seres humanos, já que todos nascemos com uma aptidão natural para amar, mas que o amor intelectual pode desenvolver.

03/05/2018

Perfume de Mulher

Imagine uma amarga infelicidade decorrente de sucessivas desilusões e frustrações agravadas por um acidente que provocou deficiência visual. O desdobramento foi uma postura arrogante, orgulhosa e extremamente agressiva no comportamento.
Esta é a história de um tenente coronel que, já aposentado e muito hábil nos raciocínios, com grande experiência de vida e revoltado com deficiência visual decorrente de um acidente que lhe tirou a visão numa brincadeira irresponsável.
Vivendo isolado na casa da filha, esta contrata um rapaz para fazer-lhe companhia, em virtude de sua ausência para viagem em família. O rapaz, jovem estudante, depara-se com uma situação constrangedora diante da agressividade daquele para quem foi contratado apenas para um fim de semana. O antigo coronel, após saída da filha, impõe uma viagem inesperada junto com o acompanhante. Sua intenção era viver o último fim de semana de sua vida, suicidando-se em seguida, mas interessa-se pelos problemas do rapaz, esquecendo sua amarga infelicidade.
Falo do excelente filme Perfume de Mulher, que recebeu vários prêmios, entre eles o Oscar 1993, recebendo ainda várias indicações.
O melhor do filme está mesmo na defesa que o coronel fez em favor do jovem na tentativa de suborno que sofria na escola. A integridade moral do rapaz impressionou o velho coronel. Estrelado por Al Pacino e Chris O´Donnell e de produção americana, é um filme que não posso deixar de sugerir ao leitor. O título parece distante do conteúdo do filme, mas foi usado porque, sendo cego, o personagem utiliza com expressão o olfato, especialmente na identificação de mulheres à sua volta, pelo perfume que usavam e que descrevia com precisão.
As reflexões que surgem, dentre outras, podem ser enumeradas nas duas principais abaixo enumeradas:
a) Pensando na prepotência e arrogância que ainda nos caracteriza a condição humana, vale lembrar que elas são fruto do orgulho e do egoísmo, geradores de todos os males humanos, entre eles todas as agressividades que imperam na sociedade atual.
b) Pensando na transformação do ser humano para melhor, somos convidados a pensar seriamente no quanto a integridade moral de cada ser humano influi na melhora no mundo, convidando-nos expressivamente à própria melhora moral, substituindo imperfeições por novas virtudes.
Eis a velha questão humana: a extrema necessidade da melhora moral, a partir de nós mesmos. Eis o programa que precisamos todos adotar: libertação física pela moderação dos apetites, libertação intelectual pela conquista da verdade e libertação moral pela procura da virtude. Isto é obra dos séculos. Isto é, porém, perfeitamente viável por meio de uma educação e uma preparação prolongada das faculdades humanas. Considerando nossa realidade imortal, não desprezemos a oportunidade da presente existência e empenhemos todos os esforços, desde já, para sermos melhores. Mais acessíveis, mais dóceis, mais flexíveis, mais ousados e corajosos nas boas iniciativas, mais comprometimento com as boas causas humanas, mais decisão na busca do melhor, menos reclamação, menos revolta, menos egoísmo, menos orgulho, menos vaidade, menos apego…
Veja o filme, leitor. Vai te fazer bem e te proporcionará uma boa viagem interior para bem pensarmos no que estamos fazendo de nossas vidas.
E o melhor: te trará a felicidade de pensar como o bem nunca se perde. O bem faz bem!
Na integridade do jovem estudante uma bela lição de vida!
por Orson Peter Carrara

26/04/2018

Preço do amadurecimento

– Orson Peter Carrara

Há muito tempo, desde a época de menino quando ia visitar a chácara de minha avó paterna, eu não ouvia o “cantar de galo”. Um dia desses, fui surpreendido por um galo cantando logo ao amanhecer. Qual dos vizinhos foi arrumar um galo? fiquei a pensar.
O interessante, porém, é que o canto do galo incomodou o cachorro que desfruta de nossa convivência doméstica. A cada “cantada” do galo, lá vinha o cachorro com suas “latidas” incomodadas. É que, para ele, vivendo na vida urbana, o barulho soou estranho. E isto incomodou todo mundo, acho mesmo que acordou os vizinhos.
Aí fiquei a pensar como os barulhos externos nos incomodam. Tudo que é novo traz desassossego, incomoda, pois temos, também os humanos, resistências a novidades. Se incomoda o cachorro, a intensidade é ainda maior entre seres humanos.
Assim é que as grandes ideias, especialmente as novas, incomodam tanta gente. Igualmente as mudanças, que muitas vezes se fazem necessárias, incomodam e muito. Aí surgem as divergências, as resistências naturais que em muitas ocasiões se tornam inclusive violentas. Aliás, vale dizer que qualquer nova ideia sempre encontrará opositores e questionadores de plantão. Questionadores que se posicionam contra só para se oporem mesmo, sem conhecerem as novas propostas, sem analisarem razões, benefícios ou propostas apresentadas.
É necessário que, antes de criticar posturas ou ideias, habituemo-nos a pelo menos conhecer a ideia, conhecermos o assunto, para depois apresentar, aí sim, argumentos contrários bem fundamentados, ao invés de simplesmente apresentarmos oposição sistemática e adotarmos postura de indiferença ou mesmo crítica descabida.
Isso ocorre numa família, numa empresa, numa cidade, e mesmo numa nação; ocorre nas diversas áreas profissionais, políticas, artísticas e mesmo religiosas. Que pena! Perde-se valioso tempo que poderia ser aproveitado para aproveitar ou descartar ideias, se essas fossem analisadas com o critério da imparcialidade e da ética, que respeita o direito de livre expressão. Note-se que as grandes ideias apresentadas à humanidade foram rejeitadas, perseguidas (e, em consequência, com perseguição a seus autores e pessoas que a elas aderiram), combatidas, inclusive a maior delas, que ainda não foi compreendida completamente…
No fundo, porém, esse período de rejeição é até útil, pois que permite o amadurecer das próprias ideias, a maturação junto às mentes que a elas aderem ou às que a elas se opõem. Não há outro jeito: é o preço do amadurecimento. É um processo ainda necessário no mundo que vivemos. Felizmente, em todos os tempos, estamos acompanhados de idealistas corajosos e determinados.

Tais reflexões cabem no momento atual do mundo. Ideias e opositores em todas as áreas de ação humana. Situação bem própria de um planeta em transição, no entrechoque das opiniões. A lei do progresso, todavia, bem descrita por Kardec em O Livro dos Espíritos, é inevitável, e levará ao despertamento dos que ainda dormem e trará alegria verdadeira aos que lutam por um mundo melhor. Por isso, nada de desistir. Coragem e determinação, persistência com o uso da paciência que constrói gradativamente, são os ingredientes dessa luta de conquistas, que amadurece e desperta.

21/04/2018

21 de abril também lembra o Braço forte!


por Orson Peter Carrara



Uma falta de atenção muito comum durante o canto do Hino Nacional Brasileiro é colocar a expressão que usamos no título da presente abordagem no plural. Muita gente ainda canta no referido trecho: “(...) conseguimos conquistar com braço forte (...)” – que é o correto, diga-se: no singular –, usando o plural e cantando com braços fortes, que não está correto. O correto é no singular mesmo: com braço forte!

Parece um detalhe insignificante, mas é preciso prestar atenção e respeitar o texto original. Até para educação de nossas crianças e formação da mentalidade cívica nacional, estimulada com a beleza da letra e da própria música, em si. Como se sabe a letra do hino foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada (1870 – 1927) e a música é de Francisco Manuel da Silva (1795 – 1865).

Mas a desatenção é mesmo um problema humano generalizado, onde todos estamos incluídos, nesta ou outras situações. Desatenção com horários e compromissos e pronúncias equivocadas, opiniões sem fundamentos ou conhecimento do assunto, preconceitos e a espontaneidade de nossa gente, até pela diversidade cultural e extensão de um país continental, são ocorrências que acabam se tornando normais, aceitas e incorporadas no cotidiano.

É comum ouvir-se: “perca total”, quando o correto é “perda total”, especialmente nos casos de sinistros com automóveis. Ou “vou passar daí” quando o correto é “vou passar aí”. E por aí vai, com supressão ou acréscimos de letras ou palavras indevidas ou incorretas.

Isso referindo-nos apenas à pronúncia das palavras. Se adentrarmos à questão da interpretação ou entendimento de palavras e frases, a questão se torna ainda mais grave, porque a dificuldade aumenta. A falta do hábito de leitura, com mais frequência e mesmo atenção às palavras, é a principal causa dessa grande dificuldade de interpretação de textos.

Isso, porém, não é nada em comparação com a índole brasileira: bondosa por excelência, cativante na alegria, acolhedora e solidária, apesar da exceção dos que ainda não perceberam a grandeza do país em que nascemos, a quem devemos imensa gratidão e participação consciente na vida cotidiana, e ainda insistem na corrupção ou nas manipulações que tantas misérias e tragédias geram. E não me refiro apenas às tragédias com mortes, mas sim às tragédias morais que infelicitam a vida humana.

O fato final, porém, é que o sentimento de amor à Pátria, os princípios de civilidade e patriotismo precisam ser semeados no coração das crianças. E, claro, que igualmente a pronúncia correta das palavras, a explicação do significado de palavras e expressões, pois tudo isso somado vai formando a personalidade, o caráter, a sensibilidade.

Vivemos essa época de desamor e de desrespeito à vida porque em algum momento da história desvalorizamos esses pequenos detalhes da educação. E agora estamos com um desafio social imenso, nunca visto. Retomemos, pois, às origens, fazendo o melhor ao nosso alcance, procurando entender a vida e não nos deixando contaminar pelo egoísmo, pelo orgulho ou pela vaidade, responsáveis diretos pelo caos social da atualidade, transmitindo às crianças que iniciam a própria vida a alegria de viver, o respeito à vida, a conduta correta.

É o braço forte da decisão de amar e prosseguir trabalhando com Jesus para construir paz e harmonia, individual e coletivamente.