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04/12/2018

Dos desvios e distorções doutrinárias


           Há que se dedicar muito cuidado e atenção na prática cotidiana da programação de nossas instituições espíritas. O compromisso do adepto espírita é com o Espiritismo. E Espiritismo está claramente definido nas obras básicas de Allan Kardec. As inclusões indevidas, práticas que distorcem, inovações oriundas de nossas distrações doutrinárias e mesmo quando criamos o “nosso espiritismo”, correm por nossa conta e risco, gerando responsabilidades de expressão, face às noções indevidas que podemos estar semeando em pessoas que agora se aproximam da Doutrina Espírita e o conhecem distorcido de suas propostas verdadeiras.

            O compromisso do Espiritismo é com a renovação moral do ser humano. Totalmente conectado com o Evangelho de Jesus, suas bases visam esclarecer e orientar sobre nossa natureza, origem e destinação como filhos de Deus. Fundamentado em bases racionais e exclusivamente voltado ao crescimento intelecto moral dos filhos de Deus, o Espiritismo dispensa condicionamentos, dependências de qualquer espécie, imposições, exigências e fanatismos que possam ou queiram se impor.

            Quando se fala em condicionamentos e dependências, há um leque enorme de situações sutis que vamos nos permitindo e que deformam totalmente a genuína prática espírita. Alguém poderia perguntar: mas qual ou quais? Relacione uma ou mais. Não há necessidade de citar, discriminar ou criar outros perigosos caminhos que são os do preconceito ou do orgulho ferido e mesmo possíveis imposições ou críticas que não cabem.

            A resposta é fácil. O Espiritismo possui e oferece ferramentas úteis e precisas para se evitar condicionamentos e dependências. Basta que perguntemos a nós mesmos: o que espero ou faço do Espiritismo? Como dirigente, palestrante, escritor ou colaborador/tarefeiro em qualquer área de atividade nas instituições – pois que não há qualquer atividade que seja mais importante ou mereça qualquer destaque, já que somos todos meros aprendizes –, como estou me portando?

            Aprisiono ou liberto e motivo as pessoas? Uso ameaças, chantagem e imponho minhas ideias e vontades como as únicas corretas? Sou daqueles que recriminam e acusam, desprezam ou não desmerecem o esforço alheio? Não é preciso continuar. Muitas outras situações podem ser incluídas.

            Com tais posturas, onde vão se incluir os desdobramentos próprios do orgulho, da vontade de dominar, da vaidade e da prepotência, geram os problemas que aí estão, esperando nossa submissão à realidade do que realmente somos: todos meros aprendizes.

            O pior de tudo isso é que deixamos que nossas tendências introduzam práticas estranhas ao Espiritismo na prática cotidiana dos Centros, como as atuais novidades incoerentes com a genuína prática espírita. Quais são as novidades? Novamente não é nem preciso citar. Basta observar com atenção! Os desvios surgem e as novidades aparecem quando esquecemos a prioridade do Espiritismo: nossa melhora e progresso moral.

            E a orientação desse programa está claramente nas obras básicas, que esquecemos de consultar, de estudar, refletir e divulgar. E principalmente de fazê-la amplamente compreensível, em suas riquezas, para aqueles que se aproximam – sedentos por entender – e são bombardeados com condicionamentos que, ao invés de libertarem, aprisionam e repetem os mesmos equívocos da história bem conhecida, ao longo do tempo.

            É nosso dever respeitar o Espiritismo! É nosso dever transmitir Espiritismo com fidelidade. Muitas pessoas que agora se aproximam do Espiritismo não trazem uma formação anterior que lhes facilite entender os fundamentos do Espiritismo e estes precisam ser explicados, comentados, exemplificados com clareza.

            E, infelizmente, diante de tanta grandeza moral à disposição para cumprir sua justa finalidade, ficamos usando nosso tempo, recursos e inteligência para finalidades absolutamente distantes da genuína prática espírita que não é outra senão a caridade, em sua ampla abrangência, que não se restringe à doação de coisas, mas à doação de nós mesmos na gentileza, na sensibilidade, na atenção, no estender das mãos, no trabalho em favor do bem geral, etc, etc.
            Abramos os olhos. Nossa responsabilidade é enorme.  E nossa fragilidade também...

Centro Espírita Allan Kardec em Campinas/SP


29/11/2018

Dos equívocos e das distorções doutrinárias


A falta de estudo da Doutrina Espírita, a ausência do uso da razão e do bom senso e também o isolamento dos grupos (fechando-se em si mesmos) são os responsáveis pelos absurdos que se cometem em nome da Doutrina e seu movimento. E isto fica por conta de quem pratica, pois o Espiritismo não pode ser responsabilizado por aqueles que não raciocinam no que fazem.
São muitos os exemplos, alguns citados em livros, jornais e revistas, por articulistas e autores diversos, todos respeitáveis e conhecidos na atividade espírita, os quais permito-me citar uns ou outros (os exemplos) para desenvolvimento do presente artigo.
  
Enquadram-se nesses equívocos:
  • a)      Obrigatoriedade de passe em todo e qualquer comparecimento ao Centro Espírita;
  • b)      Toda pessoa que chega perturbada ao Centro Espírita é médium;
  • c)      Os médiuns são seres elevados e extraordinários;
  • d)      Os oradores e expositores são seres infalíveis – “falou tá falado”;
  • e)      Médium experiente não precisa estudar;
  • f)       Não se deve bater palmas ao final de palestras para não dispersar fluidos;
  • g)   Casamento, batizado, uso de gestos e imagens, roupas especiais, cromoterapia, cristais, tvp, pirâmides, etc, no Centro Espírita;
  • h)      As mãos dadas formam correntes de proteção;
  • i)       Comemoração de Páscoa e Semana Santa no Centro Espírita;
  • j)       Para recarregar energias, o aplicador de passes deve encostar a cabeça na parede após a tarefa;
  • k)      Mulheres não devem entrar de saia no centro;
  • l)       Homens e mulheres devem sentar-se em fileiras separadas no ambiente do centro;
  • m)    Reencarnação serve para pagar dívidas;
  • n)      Os espíritos comunicantes sabem tudo;
  • o)      Determinado Centro Espírita é forte, o outro é fraco; 
  • p)   Uso de expressões, como mesa branca, baixo espiritismo, encosto e muitos outros absurdos como aqueles das correntes no chão e das garrafas em prateleiras, para prender os espíritos obsessores ou da mesa de concreto que suporte os murros dos médiuns indisciplinados.

Ora, o Espiritismo é profundamente racional. O espírita precisa sempre saber porque faz determinada prática. Pensar no que faz e analisar se está dentro do bom senso, da razão e, principalmente, se há coerência no que se pratica e o que a Doutrina ensina.

Com objetivos tão elevados e fundamentos tão racionais, como poderia o Espiritismo ver em casas que se dizem espíritas, práticas tão distantes de sua orientação? Só a falta do estudo doutrinário pode responder por esses absurdos que comportariam, em muitos casos, diversas argumentações e comentários sobre sua nulidade e incoerência. E também se caracterizam como prática distante do dinamismo da Doutrina, o espírita desanimado, o Centro distante e isolado do estudo e da divulgação – preocupado apenas com a prática mediúnica;  a Casa Espírita isolada do movimento – que traz o entusiasmo e renova; também o expositor que transmite aos ouvintes a ideia de um Espiritismo de tristeza, dor ou sofrimento, e finalmente o espírita que não estuda. Como aceitar também aquelas reuniões sem nenhuma motivação, onde um lê e todos ouvem – ou dormem, criando a figura do “espírita de banco” (aquele que entra, senta, ouve e vai embora)? OU a presença no Centro como se fosse uma obrigação penosa, sem alegria?
Espiritismo é alegria, é vida! E trabalho vibrante, com harmonia, coerência, união... Daí a necessidade do estudo individual, estudo em grupo, união de forças entre os trabalhadores da mesma casa e entre as casas da cidade e região. Isto traz entusiasmo, revitaliza o movimento e afasta os equívocos. A troca de experiências é algo muito positivo, que não devemos temer. O espírita esclarecido é dedicado à causa, sempre estuda, melhora-se gradualmente e trabalha sempre, confiando em Deus – mas usando sua própria razão.
Essas questões precisam ser discutidas para aparelharmos melhor nossas casas, tornando-as colmeias de trabalho, união e amor, para que não se distanciem dos objetivos que nortearam sua fundação.

21/11/2018

Os Carneiros de Panúrgio



Palavra diferente, não é mesmo? Eu também não conhecia. O título da presente abordagem é também o título de um livro publicado em 1890 e de autoria do Dr. Bezerra de Menezes. É um romance filosófico/político – é daqueles livros que não se consegue interromper a leitura – e retrata em sua essência (daí a referência no título a carneiros) o comportamento de pessoas que seguem cegas, sem reflexão, outros comportamentos. Como carneiros que não questionam e se sujeitam. A expressão panúrgio vem de personagem da obra conhecida como Pantagruel, do  escritor francês François Rabelais (cerca de 1494-1553).

O texto é de 1886, durante a Monarquia, e publicado um ano após a Proclamação da República. O próprio autor declara: “Esta obra foi escrita em 1886, quando nada podia fazer presumir o desastre da monarquia. Só a carência de meios, que agora me foram proporcionados, me impediu de publicá-la em pleno reinado de D. Pedro de Alcântara.(...)”.

O fato, porém, é que é obra atualíssima, muito instrutiva, no desdobramento da saga dos personagens e no analisar da própria vida humana, com os vários ingredientes que fazem as lutas do cotidiano, nos relacionamentos familiares, nos dramas e lutas pelo progresso. Entre os diálogos dos personagens, a preciosidade dos comentários fundamentos na Lei do Progresso, da Lei de Sociedade, de Igualdade, entre outras, além, é claro, da velha questão do Livre arbítrio e da Lei de Causa e Efeito. E com grande destaque para as lideranças políticas e mesmo para educação dos filhos. Uma obra espetacular, deliciosa de ler. E repito, além de muito instrutiva, muito cativante.

Escrita nada mais, nada menos, pelo grande médico Dr. Bezerra de Menezes, quatorze anos antes de sua morte, que ocorreu em 11 de abril de 1.900. Bezerra foi também político, escritor, conferencista, além de grande humanista, cuja biografia é riquíssima de exemplos em suas várias virtudes, entre elas a bondade e o amor ao próximo.

E o melhor: a obra não está esgotada, encontra-se editada, disponível, inclusive em PDF pela net. Recomendo com grande ênfase ao leitor.

O desejo aqui é enorme em transcrever vários trechos para motivar o leitor à leitura integral da obra, o que se torna impossível, seja pela extensão, seja pela preciosidade do conteúdo em todo o texto. Opto, todavia, para curiosidade do leitor, em transcrever poucas linhas que fazem referência ao título: “(...) O homem é um ruminante como o carneiro – e é talvez por isso que se sujeita a ser levado em manadas para onde o conduz o pastor. Durante um período da vida, acumula ideias, sem lhes prestar atenção, nem lhes dar o devido valor. Muito acabam a corda da existência, sem passarem desse período. São os que chamamos – carneiros de Panúrgio. Outros, raros, infelizmente, chegam ao período da reflexão – ou de remover as ideias que têm colhido em todo o tempo passado. Estes são os verdadeiros ruminantes racionais, que se distinguem do rebanho, porque compreendem que todos são iguais e têm igual destino. Não querem eles uma sociedade sem diretor, mas exigem, por honra da Humanidade, e no seu maior interesse, que o diretor seja o que se impõe por seu merecimento pessoal – e não porque nasce numa família, sendo quase sempre, por isso mesmo que não precisa fazer merecimento para subir, personagem ignorante – profundamente imoral – e, conseguintemente, pernicioso à sociedade, cujos destinos lhe são confiados (...)”.

Parece-nos desnecessário fazer mais acréscimos à pequena transcrição. Somos os que somos conduzidos? A que pastor seguimos? Honramos a humanidade que pertencemos? Deixo à reflexão do leitor com a preciosa indicação da citada obra.

08/11/2018

Falsa noção


Trago aos leitores página preciosa do estudioso Deolindo Amorim (1906 – 1984), que foi jornalista, sociólogo, publicitário e escritor, nascido na Bahia. Pelo oportunismo do texto, bem adequado aos dias que vivemos, no quais muitos nos escondemos em diferentes máscaras e diante da crise moral que se abate sobre o País, sempre é bom refletir sobre essas questões. Peço ao leitor atenta leitura, embora a transcrição abaixo seja parcial:

“(...) muita gente pensa que ser humilde é não ter personalidade. O próprio Cristo, que foi o Cristo, o bom, o justo por excelência, não abriu mão de Suas ideias, não recuou diante das dificuldades... se Ele não tivesse personalidade, naturalmente ficaria acomodado à situação e não teria suportado o que suportou em defesa do ideal que O iluminava. No entender de muitas pessoas, o que, aliás, está muito errado, ser humilde é dizer amém a tudo, é ficar bem com todos, ainda que tenha de sacrificar as mais fortes razões da consciência. Não foi isto o que o Cristo ensinou. Nem foi isto o que Ele praticou.

Veja-se bem que o Evangelho reprova o procedimento dos que, calculadamente, ocultam os seus pensamentos, isto é, não dizem o que pensam nem o que sentem, porque preferem agir na sombra! Tanto é certo que o Cristo valorizava a personalidade, que ele mesmo disse, e de modo direto, que a criatura deve ser quente ou fria; ninguém deve ser morno. Que significa isto? Significa ter personalidade, no mais alto sentido humano e espiritual. Ficar morno é ficar indeciso, de caso pensado, é não se definir de propósito, para tirar algum partido próximo ou remoto. Isto, porém, não é procedimento compatível com a ética cristã. Não tenho receio das pessoas que tomam atitudes francas, para um lado ou para outro; mas tenho muito cuidado com os que ficam mornos, pois foi para estes que o Cristo chamou a atenção de Seus seguidores.

Se o Cristo disse que o nosso falar deve ser ‘sim sim’ e ‘não não’, é claro que, com isto, reconheceu que o homem deve ter personalidade. Vejo e ouço, constantemente, citar-se o Evangelho, mas também noto que muita gente ainda não compreendeu o sentido de certas máximas fundamentais do Evangelho. Vou dar um exemplo disto: quando alguém toma atitude, porque tem personalidade, e não está conformado com isto ou aquilo, logo se diz que é um antifraternista, que é um demolidor, etc. Pouco falta para se chamar o companheiro de um herético ou pecador público, simplesmente porque é sincero, é idealista, e diz o que pensa.

É preciso que se compreenda a situação de cada um de nós, em face da responsabilidade própria. Tomar uma atitude contra qualquer coisa venha de onde vier, não quer dizer que se pretenda destruir seja o que for. É agir sinceramente, de acordo com a consciência. Já é tempo de se acabar com a suposição ou com o sofisma de que, para praticar a humildade, é necessário curvar-se a tudo ou abdicar do direito de pensar e falar abertamente. Há, entre nós, uma noção muito falsa de humildade, para encobrir muita coisa ruim. (...)”

Coincidência ou não, o texto foi publicado em 1964 e parece-nos preciso ser republicado novamente, face à excessiva valorização de valores transitórios, com desprezo aos valores reais e morais, aqueles que permanecem.

17/10/2018

Seja por omissão ou por ação




Sobre a atualidade do Brasil, em situações que todos estamos incluídos, seja por omissão ou por ação, pensemos juntos:

a) A moral é a regra para se conduzir bem, quer dizer, a distinção entre o bem e o mal (...) O homem se conduz bem quando faz tudo em vista e para o bem de todos, porque, então, ele observa a Lei de Deus.
b) O bem é tudo aquilo que está conforme a lei de Deus e o mal tudo aquilo que dela se afasta (...)
c) (...) O mal depende da vontade. Pois bem! O homem é mais culpável, à medida que sabe melhor o que faz.
d) O mal recai sobre aquele que lhe é causa. Assim, o homem que é conduzido ao mal pela posição que lhe é dada pelos seus semelhantes, é menos culpável que aqueles que lhe são a causa, porque cada um carregará a pena, não somente do mal que haja feito, mas do que haja provocado.
e) Aquele que não faz o mal, mas que aproveita do mal feito por outro, é culpável no mesmo grau? É como se o cometesse; aproveitar é participar. Talvez tenha recuado diante da ação. Mas se encontrando-a pronta ela a usa, é que aprova e que o faria ele mesmo se pudesse, ou se ousasse.
f) (...) há virtude em resistir voluntariamente ao mal que se deseja, sobretudo quando se tem a possibilidade de satisfazer esse desejo, porém, se o que falta é apenas ocasião, então é culpável.
g) (...) É preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada um responderá por todo mal que resulte do bem que não haja feito.
h) Não há ninguém que não possa fazer o bem. Só o egoísta não encontra jamais a oportunidade. Bastará entrar em relação com outros homens para encontrar ocasião de fazer o bem, e cada dia da vida dá oportunidade a qualquer que não esteja cego pelo egoísmo, porque fazer o bem não é só ser caridoso, mas ser útil na medida de vosso poder, todas as vezes que vosso concurso pode ser necessário.
i) O mérito do bem está na dificuldade. Não há mérito em fazer o bem, sem trabalho, e quando nada custa (...)


Que clareza e atualidade para nossos dias! É a grandeza do pensamento espírita! Tais transcrições foram feitas parcialmente de O Livro dos Espíritos, questões 629 a 646, que desejamos indicar ao leitor para leitura e estudo integrais do conteúdo. Veja que nos enquadramos perfeitamente na situação complexa do país, como eleitores, eleitos ou meros cidadãos e diante do uso que estamos fazendo de nossas possibilidades frente às opções e escolhas que possamos fazer nas mais diferentes situações. Embora o texto não seja específico para política note o enquadramento perfeito da situação atual vivida pelo país.