13/09/2010

Deus poderia ter criado perfeitos os Espíritos? Processo evolutivo traz méritos próprios

Eis uma pergunta sempre apresentada. Com a criação de espíritos perfeitos, Deus não pouparia os próprios filhos do mal, do sofrimento, e de todas as suas conseqüências?
Claro que Deus o poderia ter feito. Ele é todo-poderoso(1) e se não o fez é porque julgou útil que fosse de forma diferente. O assunto é empolgante e propicia sadias discussões para seu entendimento, pois aprofunda a questão de Deus e sua magnífica obra. Afinal, estamos todos neste "barco" da evolução, envolvidos ora em situações complexas, ora empolgados com as perspectivas do progresso fatal para todos e muitas vezes envolvidos com os desafios e obstáculos, que no fundo são verdadeiras alavancas do aprimoramento, que nos fazem crescer e progredir.

Na Revista Espírita(2), em sua edição de março de 1864(3), o Codificador Allan Kardec apresenta o texto A Perfeição dos Seres Criados e coloca bem fundamentadas argumentações sobre o tema. Acompanhemos seu raciocínio, após importante parágrafo em que aborda a grandeza de Deus e suas perfeições e que sugerimos ao leitor consultar; aqui transcrevemos parcialmente a partir do terceiro parágrafo:

"(...) Sendo Deus todo sabedoria e todo bondade, não poderia ter criado o mal como contra-peso do bem; se tivesse feito do mal uma lei necessária, teria voluntariamente enfraquecido o poder do bem, porque aquilo que é mal não pode senão alterar e não fortificar o que é o bem. Ele estabeleceu leis que são inteiramente justas e boas; o homem seria perfeitamente feliz se as observasse escrupulosamente; mas a menor infração a essas leis causa uma perturbação cujo contragolpe experimenta; daí todas as suas vicissitudes; é, ele próprio, a causa do mal por sua desobediência às leis de Deus. Deus o criou livre para escolher seu caminho. O que tomou o mau caminho o fez por sua vontade e não pode acusar senão a si próprio pelas conseqüências daí decorrentes. (...)".

Origem do mal

Analisando bem a transcrição acima, nos deparamos com a fantástica e lógica afirmação de que Deus não poderia ter criado o mal; este é fruto da ação livre do ser. E ação gera frutos, que podem ser bons ou ruins, de acordo com a qualidade da ação. Observemos a grandeza da transcrição seguinte: "(...) Criados simples e ignorantes, por isso imperfeitos, ou melhor incompletos, devem adquirir, por si mesmos e por sua própria atividade, a ciência e a experiência que de início não podem ter. Se Deus os tivesse criado perfeitos, deveria tê-los dotado, desde o instante de sua criação, com a universalidade dos conhecimentos; tê-los-ia isentado de todo trabalho intelectual; mas, ao mesmo tempo, lhes teria tirado toda a atividade que devem desenvolver para adquirir, e pela qual concorrem, como encarnados e desencarnados, ao aperfeiçoamento material dos mundos, trabalho que não incumbe mais aos espíritos superiores encarregados somente de dirigir o aperfeiçoamento moral. Por sua inferioridade tornam-se uma engrenagem essencial à obra geral da ciração (...)".

E a justiça?

Esse processo todo cria os méritos pela aquisição das condições morais melhores e superiores; e Deus, fatalmente, não pode estar enganado. Suas leis foram estabelecidas sobre princípios claros de justiça e bondade. Como ainda não temos a compreensão completa deste planejamento, cabe-nos o dever - já que estamos incluídos no processo coletivo - de estudar para compreender. Se não podemos sondar as causas, podemos estudar os efeitos e perceber que tudo está regido por sábias leis, conduzidas pela grandeza e bondade de um Pai amoroso e que deseja o progresso de seus filhos para merecerem a felicidade a eles destinada.

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(1). Vide questão 13 de O Livro dos Espíritos.
(2). Publicação fundada por Allan Kardec em 1858 e com circulação até os dias atuais.
(3). Edição da EDICEL, São Paulo - 1966 -, tradução de Júlio Abreu Filho, páginas 65 a 70.

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Matéria originariamente publicada no jornal O CLARIM, de dezembro de 2005.