24/08/2010

Caminhos da Indução mental

Há uma ocorrência muito interessante constante no capítulo IV do livro Sexo e Destino, ditado pelo Espírito André Luiz aos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, em edição da Federação Espírita Brasileira (1). O livro integra a chamada Série André Luiz. Tal ocorrência leva-nos a refletir sobre o poder e o alcance da indução mental.

Induzir significa causar, inspirar, deduzir, instigar, entre outros conceitos. A indução, por sua vez, é ação ou efeito de induzir, conseqüência tirada dos fatos que se examinam (grifos deste autor).

No capítulo acima citado, do importante livro, o autor espiritual comenta o caso de uma mulher de nome Beatriz, com doença terminal. O Espírito André Luiz está acompanhado do Espírito Pedro Neves, que fora pai da personagem Beatriz. Ocorre que Nemésio, marido de Beatriz e portanto, genro de Neves (já desencarnado), convidou Marina (colega de trabalho, com quem mantém caso extra-conjugal clandestino) para cuidar da esposa Beatriz. Nemésio aguarda ansioso a desencarnação da esposa para ficar com Marina, livrando-se dos processos burocráticos do divórcio.

E é neste ponto que entra nossa reflexão. Num momento de visita à enferma, após avaliação do quadro clínico, Marina e o marido de Beatriz retiram-se para cômodo ao lado e a simples suposição do que poderia acontecer ao casal ou eles poderiam fazer sem conhecimento da esposa doente, faz com que o casal registre situações maliciosas, mentalmente. André e Neves, este abatido com a traição sofrida pela esposa encarnada, percebem desapontados, que ajudaram a induzir aqueles pensamentos.

Transcrevemos parcialmente os trechos específicos do capítulo em questão:

"(...) Ele e ela comunicavam-se, entre si, as mais ternas expansões de encantamento recíproco, sem ser dissoluto, e pareciam aderir, automaticamente, às impressões que esboçávamos, de vez que acompanhávamos os mínimos gestos dos dois, com aguçada observação, prejulgando-lhes os desígnios com o fundo de nossas próprias experiências inferiores já superadas. (...) vimo-nos obrigados a reconhecer que a nossa expectativa maliciosa, aliada ao espírito de censura, estabelecia correntes mentais estimulantes da turvação psíquica de que ambos se viam acometidos, correntes essas que, partindo de nós na direção deles, como que lhes agravava o apetite sensual. (...)"

A observação de André constata também que Neves (o pai desencarnado da enferma Beatriz), contrariado com a atitude do genro infiel, "(...) se me afigurava agora um homem positivamente vulgar da Terra, que a revolta azedava. Sobrecenho crispado alterava-lhe a feição no desequilíbrio vitorioso que precede as grandes crises de violência. (...)".

Porém, a chegada inesperada de um benfeitor espiritual alterou o quadro e novamente se fez notar a questão da indução mental. Félix, o amigo recém-chegado, causou uma alteração expressiva no quadro do casal que se envolvia nos braços da paixão descontrolada. Deixemos que a transcrição parcial do livro nos faça tirar as lições que o tema nos proporciona:

"(...) Nemésio e Marina transferiram-se, de repente, a novo campo de espírito. Confirmei a impressão de que a nossa curiosidade enfermiça e a revolta que dominava Neves até então haviam funcionado ali por estímulos ao magnetismo animal a que se ajustavam os dois enamorados, que nem de leve desconfiavam da minuciosa observação a que se viam sujeitos, porquanto bastou que o irmão Félix lhes dirigisse compassivo olhar para que se modificassem, incontinenti. A visão de Beatriz enferma cortou-lhes o espaço mental, à feição de um raio. Esmoreceram-se-lhes os estos de paixão. (...) E não era só isso. Não podia auscultar o mundo íntimo de Neves; contudo, de minha parte, súbita compreensão me inundou a alma. ‘E seu eu estivesse no lugar de Nemésio? Estaria agindo melhor?’ (...) Fitei o atribulado chefe da casa, possuído de novos sentimentos, percebendo nele um verdadeiro irmão que me cabia entender e respeitar. Embora confessando a mim mesmo, com indisfarçável remorso, a impropriedade da". atitude que assumira, momentos antes, prossegui estudando a metamorfose espiritual que se processava. (...)".

Observamos, pois, dois casos de indução mental. A primeira que conduziu ao apetite sensual, pelas conclusões mentais prévias dos espíritos André e Neves, que observavam o casal e a segunda alterando completamente o quadro vivido pelo casal com a indução superior que recordou a enferma necessitada de cuidados. Repetimos a frase do livro: A visão de Beatriz enferma cortou-lhes o espaço mental, à feição de um raio. Esmoreceram-se-lhes os estos de paixão.

A direção, pois, do pensamento, é de grande poder e alcance. Tanto para os prejuízos e benefícios internos próprios do autor, como para mentes invigilantes que se deixam conduzir.

O assunto é abrangente e pode ser pesquisado especialmente através das questões 459, 460, 467, 469, 470 e 472 de O Livro dos Espíritos. A primeira delas, sempre muito citada, na resposta dos espíritos, informa que os espíritos influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem (na questão da influência sobre nossos atos e pensamentos). Já a questão 467 há a preciosa informação de que tais espíritos (refere-se aos que procuram arrastar ao mal) só se apegam aos que, pelos seus desejos, os chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem.

Porém, é na questão 472, que os espíritos (indagados se as circunstâncias são criadas ou se delas se aproveitam para atrair-nos ao mal) informam que "Aproveitam as circunstâncias correntes, mas também costumam criá-las, impelindo-vos, mau grado vosso, para aquilo que cobiçais (...)".

O desafio está, pois, na direção do pensamento que nos permitimos levar. Muitos pensamentos são sugeridos, outros captados das ondas mentais que nos envolvem e muitos outros advém, é óbvio, dos sentimentos que nós mesmos alimentamos.

Na observação e análises, verbais ou mentais, de fatos e circunstâncias que presenciamos ou não, tenhamos igualmente o cuidado da direção de nossas conclusões e induções que instigamos, pois igualmente aí está presente a responsabilidade dos próprios caminhos e a lei de causa e efeito.

Nossas palavras e pensamentos podem gerar aflições e autênticas tragédias; igualmente podem estimular progresso e felicidade. Depende da direção que imprimimos. E como o foco da presente abordagem é a indução mental, a lição trazida por André Luiz sugere pensar seriamente na questão.

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Utilizamos na presente transcrição a 8ª edição, de outubro de 1981, páginas 32 a 39.

Nota: A presente matéria é resultado de pesquisa e indicação de Américo Sucena e elaboração textual de Orson Peter Carrara.