08/10/2012

Conflitos e Grosserias


por Orson Peter Carrara

            Os conflitos humanos são de várias origens. Surgem da insegurança, do medo, da timidez, mas também da aspereza, do comportamento rude, da agressividade das palavras e mesmo do desrespeito à ordem ou às leis, à autoridade, à pessoa humana, às instituições estabelecidas. Surgem também como efeito da calúnia e da maledicência,  mas não há dúvidas que entre as principais causas estão a grosseria e a ganância, que geram violências decorrentes do egoísmo e da prepotência sem freios.
            Conheço um caso de um funcionário que, tendo galgado um posto importante de comando numa grande empresa, tornou-se um tirano. Agindo com tortura para chantagear colegas, fazendo pressão desumana, separando casais de funcionários com transferências arbitrárias, gritando com qualquer pessoa que lhe estivesse à frente e simplesmente ignorando a condição humana dos demais funcionários, transformou-se num autêntico monstro de agressividade, como se uma fera fosse. Referido comportamento, suportado por anos, gerou-lhe uma onda de ódio das pessoas atingidas pela sua arbitrariedade. Lembro que a definição da palavra arbitrariedade é, entre outras, abuso de poder, capricho.
            Esse capricho em torturar criou clima de antipatia agressiva, gerou ódio como dito acima a ele endereçado, o que lhe causou intenso sofrimento. Já não conseguia levantar os braços e uma terrível enfermidade passou a corroer-lhe os testículos. Procurou o médico, fez tratamentos, cirurgias e nada modificava o quadro. Licenciou-se do trabalho para tratamento, até que alguém lhe chamou a atenção de que o quadro doentio era conseqüência do comportamento truculento. Percebeu a causa, mudou de vida, tentou reparar os equívocos e recuperou-se. Mas foi um período longo de lutas e sofrimentos, para ele e para os atingidos por seus caprichos doentios. Felizmente tudo passou.
            Pode não parecer, mas muitos desses comportamentos truculentos originam-se na infância. Ou se já existe a tendência trazida na bagagem, essa fica  estimulada  pelo exemplo e comportamento ou desatenção de pais e educadores.  Quando os pais não corrigem as pequeninas tendências agressivas ou vivem satisfazendo as vontades e caprichos daqueles que iniciam o aprendizado da convivência, teremos no futuro adultos difíceis, agressivos, egoístas e geradores de intensos quadros de sofrimento e tortura na convivência social.
            Corrigir desleixos, não permitir palavreado vulgar ou agressivo, exigir atenção e respeito com os mais velhos e com a ordem social, coibir vandalismos, disciplinar horários e arrumação da própria cama ou guarda de brinquedos ou roupas, não permitir abandono de meias, tênis, toalhas e roupas íntimas pela casa, entre outras questões, desde a pequena infância, formarão adultos responsáveis, dignos e mais fraternos, expulsando a violência de palavras e atos no comportamento.
            Não nos damos conta, mas a violência que está no mundo surge da intimidade familiar, dos tiranos que são formados diariamente pela invigilância dos pais que vão permitindo exageros e condutas que bem poderia ser evitadas com a disciplina do diálogo e da educação.
            Fácil? Não! Não mesmo! Os filhos trazem bagagens, nem sempre acessíveis aos pais. Não são estes os únicos responsáveis, mas a parcela de contribuição que podem oferecer para formar adultos seguros e responsáveis, dóceis e respeitadores, é imensa.
            Notem os leitores um detalhe marcante: não nos damos conta, por exemplo, da importância de solidificar a fé no coração infantil. Deixamos as crianças entregues ao alheamento aos valores da fé, mantendo-as distantes do Evangelho. Na idade adulta, isso fará tremenda falta. Diante dos embates naturais da vida, sem os valores que confiam e agem, a tendência é usar a agressividade para se defender, pois não há bagagem construída para esse enfrentamento. Aí nos deparamos com os quadros que aí estão...
            A grosseria é incompatível com o progresso e com a ordem, com a harmonia para a convivência. Dela resultam inúmeros conflitos que bem poderiam ser evitados. Tratemos de nos disciplinar, pois há olhares atentos que nos tomam como exemplo. Somos co-autores ou co-responsáveis pela violência que ainda impera no mundo, a começar na intimidade familiar.