22/01/2013

Prejuízos da dureza de coração num filme


por Orson Peter Carrara

Considerado um dos melhores filmes de 2003, Uma casa na bruma ou House of Sand and Fog, na versão original, é uma bela produção do cinema e mostra claramente até onde nossa dureza de coração pode levar.

                
Orgulho, falta de flexibilidade e dureza de coração podem ser tão perniciosos quanto um crime. No drama vivido pelos atores Jennifer Connely, Frances Fisher e Ben Kingsley, encontramos a seguinte sinopse: Ben Kingsley é Massoud Amir Behrani, um imigrante iraniano que depois de casar a sua filha, decide aplicar o resto das suas finanças na aquisição de uma casa na Califórnia. A casa de Massoud decide comprar pertence a Kathy Nicolo (Jennifer Connely) e representa quase tudo para si, já que herdada do esforço do pai. A casa é posta à venda graças a um erro burocrático e a proprietária não o consegue impedir, um erro que originará um confronto entre as duas partes e que os levará até às últimas consequências.
               
Na sequencia da trama os fatos se transformam gradativamente em tragédia na vida de cada personagem, em lances de suspense e surpresas, mas todos marcados pelo comportamento arredio, de teimosia, de orgulho e especialmente originados da dureza de coração. Muitos fatos ali vividos poderiam ser evitados não fossem a presença da ganância e do exacerbado orgulho e que resultaram numa tragédia de largas proporções para todos os personagens, como notará o leitor que buscar o filme na locadora e o ver em casa ou mesmo buscá-lo na internet. Um belo filme! Faz pensar sobre nossas posturas arraigadas, apegadas, egoístas e especialmente rudes. Para que?
                
Tudo poderia ser diferente não fosse o comportamento turrão. O mais interessante de tudo, sem querer contar o filme, é que o detonador de toda a situação – o marido que abandonou a esposa e a levou ao esquema de vida destroçado – não aparece uma única vez, é apenas citado.
                
E muitas vezes é assim também na vida real. Um gesto, um comportamento, uma decisão tem desdobramentos que não podemos imaginar.
                
Esse “jogo de cintura”, essa flexibilidade nos relacionamentos é muito salutar para a paz social, para o entendimento, mesmo nas mais complexas questões. O chamado bater o pé, a teimosia declarada, a rebeldia que agride, o “não dar o braço a torcer”, o “não voltar atrás” podem ter desdobramentos lamentáveis que nos trará intenso arrependimento depois.
                
Ceder em muitos casos pode ser a mais sábia das decisões. Não é o ceder por ceder, mas é o ceder refletido, verificando a imaturidade do outro e pensando nas consequências de um comportamento turrão. Saber esperar, esforçar-se por compreender o outro lado, pensar dez vezes antes de agir, não precipitar-se, pode parecer covardia aos olhos dos outros, mas pode significar expressivo investimento para a própria paz de espírito, para a consciência tranquila no futuro. Basta pensar que um segundo de raiva e não controle das emoções em desequilíbrio pode custar décadas de sofrimento e angústias.
                
Melhor, pois, sermos mais acessíveis, mais flexíveis.                
Veja o filme, leitor. Você vai gostar e como eu, vai pensar duas vezes...               
Afinal, a teimosia ou a pretensão de sempre ter razão pode desdobrar-se em muitas aflições que tranquilamente poderiam ser evitadas. Convenhamos que nem sempre temos razão. A humildade nos pede esse olhar para nós mesmos para verificarmos até que ponto nosso arraigado ponto de vista não é motivo de sofrimento para outras pessoas.