28/11/2013

Tarefa dos enxovais

Orson Peter Carrara

Voluntários anônimos ou vinculados a grupos de diferentes denominações religiosas dedicam-se ao amparo de gestantes carentes, com a distribuição de enxovais para os bebês que vão chegar; em alguns casos, inclusive, com cursos de orientação nos cuidados com a gestação e com os futuros filhos. Com arrecadação e doações provenientes de diversas fontes, para a aquisição de tais enxovais, o fato é que há décadas o importante trabalho existe em muitas cidades e grupos, sem falar das iniciativas individuais, com a confecção de roupinhas, sapatinhos e outros acessórios de atendimento aos recém-nascidos.
 Sobre o tema, trago aos leitores duas diminutas histórias de um ângulo que talvez o leitor não se tenha dado conta:

1 – A pobre mulher, já com oito filhos numa verdadeira escada cronológica, aguardava o nono rebento e procurou ajuda para receber a doação de um enxoval para o bebê. Vivendo com muita dificuldade familiar, muito magra e quase passando fome, o marido estava desempregado e entregou-se à bebida, chegando violento em casa todo dia, atingindo a esposa e os filhos. Ela não reclamava do marido, dizia que ele era bom e tentava afogar a angústia do desemprego na bebida. Feito o cadastro e avaliação, ela recebeu a farta sacola com as roupinhas. Foi de surpresa em surpresa, chegando às lágrimas, com a qualidade, quantidade e beleza das peças acumuladas e que lhe eram doadas. Chorou de intensa emoção e comoveu o marido da mesma forma que, percebendo receber tanta generosidade de pessoas que nem conhecia – fez inúmeras perguntas sem entender o fato de receber tantos mimos e acessórios extras em meio às bonitas e cheirosas roupinhas para o filho que chegaria –, que tomou uma decisão: largou a bebida e mudou o rumo da própria vida. Logo conseguiu um emprego e a vida do casal, embora difícil, voltou à normalidade.

2 – A moça, muito jovem e humilde, engravidara do namorado que – como sempre ocorre – ao saber da gravidez a abandonara. Filha única, foi rechaçada pelo pai já idoso em virtude da gravidez não programada, até por uma questão cultural de formação do pai, habituado à rigidez dos costumes. Sensibilizou-se, todavia, com o farto enxoval que a filha recebeu em doação. Não podia acreditar na generosidade de pessoas desconhecidas. Embora mantivesse postura inflexível ante os primeiros meses, deixou-se vencer pelas vibrações que aquelas peças emitiam, chegando a afirmar: “Se até Deus está ajudando, porque não vou ajudar. Eu aceito ela de volta com meu neto”.

As duas pequenas histórias revelam algo extraordinário. Não são as doações em si, mas o amor com que foram planejadas, organizadas e mesmo entregues. Usei o exemplo dos enxovais, mas poderia falar sobre a distribuição de sopa ou atendimento a mendigos, idosos, famílias inteiras, ou os atendimentos médicos e odontológicos, entre outros, de voluntários abnegados na área de saúde ou da educação, como a alfabetização, etc., entre outras notáveis iniciativas humanitárias em favor da população mais carente.

É que todo gesto ou iniciativa impregnada de amor, do desejo de ajudar, de aliviar a agrura do semelhante, igualmente impregna o material usado e beneficia diretamente aqueles que recebem os benefícios, muito além do próprio objeto ou acessórios doados e recebidos.

Os gestos desprendidos de amor em favor do próximo operam autênticos milagres de transformação em favor do bem e da harmonia, individual e coletiva. O amor é capaz de impregnar ambientes, sensibilizar corações endurecidos, despertar a esperança e a alegria de viver. Onde colocamos o amor tudo se transforma. Como no caso da duas histórias.

As duas bonitas histórias – num total de sete – estão no último capítulo do extraordinário livro Diversidade dos Carismas, de Hermínio Miranda, que desejo recomendar ao leitor. O capítulo tem o nome de Os carismas e a caridade, que desejo recomendar aos leitores.

Agora uma última análise: esses gestos de desprendimento, de renúncia em favor do próximo, do amor que procura e se preocupa com o bem estar alheio, nada mais é que a maravilhosa influência do Cristo nos corações humanas. Sua presença ilumina, convoca ao bem e faz sentir o autêntico amor que confia e sente a dor alheia, procurando minorá-la.

Surge novamente o Natal e a presença doce e suave do Mestre da Galileia nos pede olhar à nossa volta, antes da satisfação própria no consumismo, e atender à massa humana carente de amor essencialmente. Como faremos? O que faremos? Para quem?


Eis uma descoberta pessoal, que cada um fará à sua forma. Não há uma receita própria. Francisco de Assis, despojado de tudo, rejeitado pela família, incompreendido de todos, achou seu caminho e fez-se instrumento de paz para o mundo... E nós, o que estamos fazendo? Deixando-nos consumir pelo pessimismo e pela reclamação, ou procurando nosso caminho para igualmente servir de alguma forma, pelo menos em gratidão ao Mestre que conduz a Humanidade?