27/05/2014

Você amaria assim?

Orson Peter Carrara

                Um casal unido e trabalhador residia nos arredores de Boston e casados há 20 anos e sem filhos. Em 1947, após a segunda guerra, o marido recebeu uma proposta para trabalhar na reconstrução do Japão e, sendo engenheiro, realmente as chances eram boas. Seria um ano de separação apenas, o que foi aceito a muito contragosto da esposa.

                Como, à época, as comunicações não eram tão fáceis, eles trocavam cartas e vez por outra, por ondas de rádio, em equipamentos do governo americano. Ambos choravam de saudades, cortados pela distância. No décimo mês ele escreveu informando que foi convidado a permanecer mais seis meses. Ela reagiu com tristeza e protesto, mas ela a convenceu do ganho material que resultaria de mais seis meses naquela missão.

                Ao completar-se o quarto mês do novo contrato, faltando, portanto, dois meses para seu retorno, ele enviou extensa carta informando que apaixonara-se pela camareira e já havia, inclusive, se casado com ela, tendo solicitado o divórcio pelos meios legais. Pediu perdão à esposa e deixou na mulher uma sensação clara de um grande choque emocional, que perdurou por vários dias, gerando sentimentos de intenso ódio, face à traição que a atingiu.

                Quatro meses depois ele escreveu comunicando que seria pai. A criança nasceu, uma linda menina, ele enviou uma foto e mais algum tempo nova carta chegou com outra notícia, agora da segunda gravidez. Outra menina nasceu. Ele novamente enviou nova foto, agora com as duas filhas e a esposa.
                Um tempo depois outra notícia que a abalou sensivelmente: ele foi diagnosticado de câncer com expectativa de vida de apenas quatro meses, no máximo, o que se consumou mais tarde com carta da segunda esposa informando a morte do marido.

                Alguns anos depois a viúva enviou-lhe carta, solicitando ajuda, pois a situação no país era terrível e o marido não recebia o que dizia que recebia e não quis preocupar a primeira mulher quando se deparou com a situação real. A primeira mulher iniciou ajuda à segunda esposa do próprio ex-marido, a ponto inclusive de atender pedido da japonesa para receber as filhas do ex-marido, pois a japonesa não tinha mais como cuidar dela, tal a precariedade da situação. Recebeu as meninas com intensa emoção, estavam com 3 e 5 anos. Cuidou delas com amor.

                Mais tarde travaria outra luta jurídica no país para trazer a japonesa para cuidar das filhas. Foi a um jornal e contou a história, que foi publicada para sensibilizar o governo, que permitiu a vinda da japonesa. Haviam implicações diplomáticas com a questão, à época.

                Ao receber a esposa do seu ex-marido no aeroporto a sensação inicial foi de revolta, vencida pela constatação de que ela estava num país estranho, sem conhecer o idioma, entregue à uma situação constrangedora, concluindo que aquela menina estava vivendo um grande conflito, pelo constrangimento da situação. Ao se encontrarem, venceram todas as barreiras, se abraçaram e choraram convulsivamente.

                Tornaram-se grandes amigas, as filhas agora tinham a mãe. Os anos passaram e, com idade um pouco avançada, Luisa – a primeira esposa – escreveu seu testamento e deixou sua decisão nos seguintes termos: “Inicialmente Deus me brindou com um grande amor! E este amor, por alguma razão que desconheço, Deus resolveu subtrair de meu caminho. Mas como o Criador é muito sábio, Ele multiplicou por três aquele amor que se foi. Sou imensamente feliz, porque Deus substituiu um amor ausente por três pérolas do Oriente, que são os amores de minha vida. Portanto todos os bens que acumulei (...) eu ofereço à minha filha japonesa Aiko e às minhas netinhas. ” Ela morreu dois meses depois.

                Na reportagem publicada, ao concluir a narrativa, o jornalista resolve fazer uma pergunta de grande significação ao leitor: “Você amaria assim? ”.  A pergunta deu título à reportagem.  Essa linda história foi extraída do extraordinário livro Sexo e Consciência, de quase 600 páginas, organizada pelo farmacêutico e professor universitário Luis Fernando Lopes, Mestre em Psicologia pela USP, repleto de casos comoventes envolvendo a temática do sexo (como aborto, traumas e aberrações sexuais, homossexualismo, prostituição, entre outros), após dez anos de pesquisa audiovisual nas narrativas do tribuno Divaldo Pereira Franco. Aqui fizemos mero resumo da história, muito mais rica no original, indicando o livro ao leitor, perguntando-nos uns aos outros: seríamos capazes de amar assim?   O livro pode ser adquirido pelo telefone 0800 707 1206. Não tenho como não recomendá-lo aos leitores.