20/08/2014

Contrastes

Orson Peter Carrara
                
O Verdão, no ano de seu centenário, torna-se verdinho, um time morto em campo, fruto de uma administração desastrosa. Bem de acordo com a teimosia, no São Paulo, de Ceni, que não se decide que já deveria ter parado há muito tempo, tendo perdido a oportunidade de sair a tempo com glória, como fez Marcão. E pior: no ano da Copa do Mundo no Brasil vemos a atual geração de futebol – incluindo também a teimosia de Felipão – jogar pelo ralo a tradição e garra da Seleção Brasileira. Isso sem falar em outros papelões bem conhecidos.
                
Estive em Três Corações-MG e pude visitar os vários monumentos e homenagens a Pelé, na época de glória do futebol. A visita e a memória ali preservada levaram-me a essas reflexões. Mas o futebol também reflete o momento complexo e difícil do país, igualmente entregue ao descalabro gerado pelo jogo de interesses movido pelo egoísmo e pela sedução do poder.
                
Pessimismo? Não! Em absoluto! A crise gerada pelos interesses vem de longe. Não é de agora, ela integra a história humana. É uma luta desafiadora. Na verdade, as crises trazem o progresso, mas muitas dificuldades poderiam ser evitadas não fossem nossa teimosia humana e especialmente os efeitos danosos do egoísmo e do orgulho, ainda imperantes em nossa mentalidade coletiva.
                
Estamos em 2014. Nos dias 23 e 24 de agosto de 1572, na França, o sangrento Massacre da Noite de São Bartolomeu, por causas religiosas e políticas, tornou-se um dos espetáculos mais horrendos de nossa história. Há exatos 60 anos, em 1954, também no dia 24 de agosto, no Brasil, o Presidente Getúlio Vargas suicida-se com um tiro no peito, pressionado pelas crises no país.
                
Mas, apesar das crises contínuas da vida humana, voltemos a atenção para o momento atual do país. Estamos aí, às vésperas das eleições, exigindo intensa reflexão. O voto é instrumento de construção da democracia. Depois de anos de lutas pela construção plena da liberdade, com participação de importantes vultos na história recente do país, vemo-nos ameaçados com o bem que mais desejamos na vida social: a liberdade.
                
Anular o voto ou não votar é o caminho mais fácil, mas incoerente com a necessidade do presente, que exige posicionamento firme, coerente e corajoso, pois a omissão política e mesmo a indiferença com os interesses coletivos do país gerou o quadro complexo que estamos vivendo, com justas preocupações. O desinteresse pela cidadania, gerado pelo egoísmo e a acomodação, levou ao delicado momento.
                
Chegou o momento da consciência coletiva. Afinal como usamos o voto: para interesses e causas pessoais ou no interesse da nação? Como candidatos ou eleitos, qual o interesse de participação na vida política do país? Ainda nos move o interesse pessoal?
                
São contrastes a serem revistos. O modelo de manipulações de bastidores já mostrou estar ultrapassado, sendo uma das causas das contínuas crises que se repetem em instituições de qualquer perfil, com reflexos diretos na vida individual e coletiva.
                
Quando é que aprenderemos a respeitar os limites da liberdade? Pensamos que tudo podemos ou que somos o dono de tudo, que dominamos... Mas, felizmente, a vida com sua sabedoria sempre surge abundante para nos colocar no lugar e mostrar nossa fragilidade.
                
Mais cedo ou mais tarde, convenhamos, a vida nos colocará no nosso devido lugar. Quanta ilusão produz o poder! Quantos prejuízos morais e materiais, educacionais e sociais oriundos do desconhecimento de que há leis sábias e justas que regem a vida humana e que sempre responderemos – sem configurar castigo, mas sim se apresentando como consequência – pelos danos que causamos a nós mesmos, à coletividade, ao progresso e à paz que temos o dever de preservar.
                
Melhor abrirmos bem os olhos enquanto há tempo claro...                
Afinal, os estados conscienciais definem nosso céu ou inferno interior, pela consciência tranquila ou pelo remorso e arrependimento que sempre colheremos pelas ações que nos deixemos empolgar, muitas vezes inadvertidamente. Quando a consciência acordar para a própria realidade, esses estados surgirão inevitáveis e fortemente presentes!