08/10/2014

Maior dos males

 Orson Peter Carrara

De todos os males e imperfeições humanas, qual o pior deles? A pergunta fora dirigida pelo aprendiz ao seu mestre. A sabedoria da mente lúcida daquele condutor de almas respondeu sem hesitar:  – É a inveja!
Ela é a raiz de todos os males, fonte de desgraças, inimiga virtual do bem geral e coletivo. Na verdade, se bem analisada, ela é a causa de todas as falhas humanas, gerando a calúnia, a desarmonia, a deslealdade, a ambição. Ela também é a grande administradora das guerras e dos ódios e como ágil serpente, infiltra-se por toda parte, envenena relacionamentos, corrompe e avilta.

O olhar do invejoso é estéril, frio, inexpressivo. Suga, insaciável, a seiva da árvore que a abriga, morde a mão de quem lhe presta auxílios e, incrivelmente, é inimiga de todo aquele que lhe faz bem.

Não sabe agradecer e se lhe atendem em suas necessidades, cercado de atenções, afasta-se logo e alega que apenas lhe pagaram pelo muito que deviam. Por outro lado, se lhe dão de beber quando tem sede (o exemplo da sede amplia-se para outras questões), bebe avidamente, mas proclama depois que a água não estava pura.

A inveja é aquela voz a reclamar de maneira permanente e principalmente a quem lhe ampara. E, pior, parecendo ter amigos, fale e age na ausência deles como verdadeiro inimigo que é, no uso da intriga e da maledicência.

E é possível reconhecer a inveja nas almas humanas? Conhece alguém assim?
Sim, é fácil. O homem dominado pela inveja é o mais infeliz de todos. Jamais se satisfaz. Se possui um bem, prefere ambicionar o alheio, as aos bens alheios nega todo bem. Vive angustiado e amargurado. Não sorri, não sonha, não chora porque insensível.

Também não olha francamente, apenas entreolha, e está sempre a distribuir amargor e mal estar ao seu redor. Essa imperfeição humana deforma de maneira tão expressiva a alma humana que se torna fácil reconhecer um invejoso.
Afastemo-nos, pois, da inveja se desejamos a felicidade. A inveja é uma bobagem moral, uma perda de tempo sem precedentes. Por que comparar-se com o outro, com a posição alheia? Cada vida é uma vida. Filha ou geradora do ciúme, é um mal a ser combatido.

E pergunta ainda o aprendiz:  – Que fazer, então, contra esse terrível mal? E respondeu o sábio:
– Nada! A não ser amar. Ama teu próximo, mais que a ti mesmo, e assim estarás livre da inveja.


Nota do autor: Texto com adaptações, inclusive com transcrições parciais, da crônica O maior dos males, extraído do livro À sombra do Olmeiro, de Dolores Bacelar, edições Correio Fraterno.