02/04/2015

Convenhamos

por Orson Peter Carrara
Parece que todos concordamos, ou pelo menos a maioria, que o país vive momento complexo, de conflitos de opiniões, de corrupção escancarada, com seus desdobramentos próprios. Isso não é novidade, já é cultural e vem de longe. Surge sempre – a corrupção – quando nos permitimos usufruir vantagens indevidas, introduzimos chantagens e manipulamos bastidores para alcançar objetivos particulares em desconsideração ou indiferença com o interesse coletivo ou de terceiros.
Ela, a corrupção, não está só na política. Está em tudo, na vida diária, familiar, social, entre amigos ou parentes, quando tentamos ou conseguimos ultrapassar o direito alheio. Seja numa fila, onde achamos que nossa pressa é mais importante, numa vaga para estacionar onde igualmente desrespeitamos a sinalização, quando tentamos subornar o guarda ou o fiscal e mesmo quando mentimos em casa, para os filhos ou para o cônjuge. Aí começa o processo.
Reclamamos do governo, mas o governo apenas reflete a corrupção individual que alcançou a posição de governança. E, interessante, governo corrompe em prejuízo da nação e o cidadão corrompe em prejuízo daqueles que estão no poder.
Nossa posição de cidadão comum não pode ser omissa nesse processo todo que estamos. Pacificamente temos sim que protestar, discordando dos absurdos e vergonhas em andamento, até por dever de cidadania, uma vez que o sistema vigente prejudica toda a coletividade brasileira, com desdobramentos sobejamente conhecidos em várias áreas que nem é preciso citar, pois que visíveis e reais. É, todavia, mero fruto do egoísmo, do materialismo que ainda domina a mentalidade humana, que procura vantagens e se deixa seduzir com muita facilidade pelo poder ilusório do dinheiro.
Não é uma questão de procurar culpados, mas uma necessidade de correção de rumos. Estão prejudicados a educação, a saúde e variados outros setores, a administração em geral e os valores pátrios, que constroem a cidadania, estão em descrédito e abandono, justamente pelos exemplos vergonhosos daqueles que deveriam construir o bem da coletividade e lutam pelos interesses próprios.
Mas a vergonha também é nossa, civis comuns. Omissos e indiferentes com a política e a cidadania, permitimos que o quadro atual aí se instalasse. Mesmo que nossa opção não seja aquela que aí está, estamos todos no mesmo “barco” do desgoverno atual. E agora cumpre-nos o dever cívico da união para alterar o quadro vigente. E isto deverá ser sem violência ou vandalismo, pois estes recursos são incompatíveis com a honradez, a retidão, a decência, a civilidade.
Mas o fato é que não podemos mais permanecer omissos. Temos sim o dever e o direito de exigir novos rumos ao país, com profundas alterações na legislação vigente, em várias áreas.
E o mais marcante disso tudo é que não começará por cima, mas se iniciará por baixo, pela própria postura que devemos adotar diariamente no respeito à coletividade, nos pequenos gestos de retidão e solidariedade, que colocarão em larga carreira – deixando-os totalmente deslocados – aqueles que ainda teimam na conquista dos valores perecíveis e ilusórios do poder e do dinheiro, bens transitórios que existem para beneficiar a todos igualmente.
Estamos assim porque ainda desrespeitamos a Lei de Liberdade. Ainda abusamos em demasia do poder de escolha em mãos, esquecendo-nos que sempre responderemos – mais cedo ou mais tarde – pelas escolhas que hoje fazemos.
Aqueles que matam, que roubam, que estupram, que violentam, que corrompem, que tiram vantagens pessoais em prejuízo de terceiros, que estouram terminais bancários, ou que manipulam nos bastidores, desviando dinheiro, que caluniam ou mentem, que armam em favor dos próprios interesses, se soubessem o que os aguardam, não o fariam. E o mais surpreendente: não é castigo. Mas é mera consequência, um desdobramento da lei de amor que dirige a vida. Todo mal, toda falta, exigirá no devido tempo a reparação do mal causado a si mesmo, a terceiros ou à coletividade.
Por isso é melhor andar com honestidade, não abusar, não matar, não roubar, não maldizer, porque mais cedo ou mais tarde a vida nos devolverá o fruto de nossas escolhas e teremos que encará-los de frente, buscando caminhos de reparação.