02/02/2016

Ponderação de lucidez

– Orson Peter Carrara

O que se vai ler abaixo é trecho de um pronunciamento de Allan Kardec, em 6 de outubro de 1865, na reabertura das sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espiritas, e que contém atualíssima e feliz ponderação do Codificador – dirigida aos espíritas de sua época e perfeitamente cabível nos dias atuais do movimento espírita e mesmo para nossa condição de cidadão –, publicada na íntegra na edição de novembro de sua Revista Espírita, do mesmo ano, que recomendamos aos leitores. Aqui destacamos um único parágrafo, valioso por si mesmo. Vejam:
R. E. novembro de 1865: «Deus me guarde de ter a presunção de me crer o único capaz, ou mais capaz do que um outro, ou o único encarregado de cumprir os desígnios da Providência; não, este pensamento está longe de mim. Neste grande movimento renovador tenho a minha parte de atuação; não falo senão daquilo que me concerne; mas o que posso afirmar sem vã fanfarrice, é que, no que me incumbe, nem a coragem, nem a perseverança, me faltarão. Nisso jamais falhei, mas hoje que vejo o caminho se aclarar de uma maravilhosa claridade, sinto minhas forças crescerem, não tenho mais dúvida e graças às novas luzes que praza a Deus me dar, estou certo, e digo a todos os meus irmãos, com toda a certeza que jamais tive: coragem e perseverança, porque um esplendoroso sucesso coroará vossos esforços.”.
A seleção parcial está dentro de um contexto geral, cuja íntegra do texto trará ao leitor esclarecimentos valiosos de atuação espírita. Destacamos, todavia, esse parágrafo específico pela evidência da humildade de Kardec, ao lado de intensa força pessoal construída sobre virtudes que todos podemos valorizar nesses tempos de imensa dificuldade social: coragem e perseverança.
Embora seu extraordinário trabalho de organização do corpo doutrinário do Espiritismo com as instruções colhidas dos espíritos, ele não se coloca em posição superior a ninguém, reconhece que todos tem sua parte de ação no programa geral de expansão do pensamento espírita.
Esse reconhecimento da parte de trabalho que cabe a cada um de nós no concerto geral de evolução do planeta, onde se inclui naturalmente o próprio esforço pessoal nesse objetivo, é o primeiro passo que vacina contra vaidades ou pretensões desconectadas com nossa condição de filhos de Deus destinados à felicidade.
Todos podemos oferecer nosso trabalho, nosso esforço. Se soubermos agir com lucidez, se nos respeitarmos mutuamente, usando as ferramentas da coragem e da perseverança – como destaca o Codificador – um esplendoroso sucesso coroará vossos esforços, usando as palavras do próprio Kardec em seu discurso.
E o que seria esse sucesso senão a vitória sobre nós mesmos, no domínio das paixões e imperfeições que ainda trazemos, no cumprimento do dever, do esforço pela conquista de virtudes, na luta pelo progresso. Exemplo claro trazido pela conduta do codificador do Espiritismo, que não se deixa vencer pela postura vaidosa ou orgulhosa, embora todo o trabalho que estava em suas mãos.
A Revista Espírita é riquíssima fonte desses ensinamentos. Recomendo-a com ênfase aos leitores.