16/02/2017

Para não espanar



Orson Peter Carrara

Desemprego galopante, surpreendente. Crises sociais intensas. Preocupações e angústias que se multiplicam. Desafiantes situações surgem diariamente para indivíduos, empresas, instituições, famílias. Tanto na área do relacionamento, dos questionamentos interiores, na empregabilidade, na saúde, na violência ou na indiferença, tudo convidando a rever posturas e posicionamentos, estimulando novas buscas, convidado à renovação e derrubando velhos e ultrapassados paradigmas. 
Por mais paradoxal que possa parecer, são situações necessárias. Justamente para nos despertar dessa letargia da indiferença ou do comodismo, da incredulidade.

Causas? Não é difícil indicar. O materialismo, ou a crença no nada, a busca desenfreada do prazer, o valorizar da ganância, do poder, do dinheiro, em detrimento dos valores essenciais.
Diz-nos, todavia, o poema de Cruz e Souza (1861-1898), poeta catarinense de emotividade delicada: (em Parnaso de Além-Túmulo, ed. FEB, página 385 da 19ª edição, de abril/16)

Aos torturados
Torturados da vida, um passo adiante;
Nos desertos dos áridos caminhos,
Abandonados, trêmulos, sozinhos,
Infelizes na dor a cada instante

Sobre a luz que vos guia, bruxuleante,
E além dos trilhos de ásperos espinhos,
Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos,
Mundos de amor no claro azul distante...

Chorai! Que a imensidade inteira chora
Sonhando a mesma luz e a mesma aurora
Que idealizais chorando nas algemas!

Vibrai no mesmo anseio em que palpita
A alma universal, sonhando, aflita,
As perfeições eternas e supremas!

É que a vida é muito mais que os áridos caminhos da vida humana. Aqui são degraus de aprendizado, abrindo caminho para felicidade concreta que alcançaremos. Mas há o preço do aprendizado e do amadurecimento. Para não espanarmos, pois, na tristeza ou no descontrole, a diretriz é Prosseguir! Sempre confiantes, determinados, ativos e especialmente comprometidos com o bem geral e, claro, com a poderosa ferramenta da fé. Da fé que raciocina, que pensa, que analisa, que observa. Não aquela que vacila diante dos obstáculos.

Apertam as situações? Pressionam as adversidades? Bom sinal! É clara a indicação que estamos sendo convocados a sair do comodismo e da indiferença, da descrença e do desamor, convidados claramente agora à vivência da fraternidade. Exatamente aquela que nos ensina a amar.  Se não formos espontâneos na busca dessa singular oportunidade, vem a dor cumprir seu papel e despertar nossa insensibilidade. Melhor, pois, agir com inteligência e desenvolvermos em nós mesmos os mecanismos do amor.

Esperam-nos panoramas iluminados de amor e felicidade, no futuro. Mas temos que construir uma escada e subir seus degraus. Daí a importância vital da iniciativa!

Inspiremo-nos no bem geral, deixemo-nos contagiar pela vontade ser útil, dispensemos o egoísmo e a vaidade, esqueçamos a ganância, excluamos o orgulho que se fere tão fácil e olhemo-nos com os olhos repletos de compreensão descobrindo os intensos valores que todos possuímos, passaportes que nos levarão às moradas de felicidade que nos aguardam de portas abertas.