Martin Luther King Jr.: “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar.”


 

Injustiças, o que fazer?*

Cássio Leonardo Carrara


Já imaginou-se o caro leitor ser vítima de uma falsa acusação? Não me refiro aqui a situações banais do cotidiano, que podem ser facilmente contornadas por meio de uma conversa, mas a denúncias que podem efetivamente alterar a trajetória de uma toda uma existência, comprometendo relações e provavelmente gerando ódio.

Peguemos dois exemplos para ilustrar nosso pensamento: uma denúncia publicada por meio da grande imprensa, acusando alguém injustamente de cometer uma ilegalidade, e um processo criminal em que o autor do delito é assim qualificado em razão de uma prova falsa ou porque é homônimo do verdadeiro culpado ou, ainda, porque a cor da sua pele é motivo de condenação.

Sobre esta última hipótese, recomendo a magnífica minissérie Olhos que Condenam, baseada em fatos reais e disponível na Netflix. Em quatro episódios, mostra como autoridades dos Estados Unidos criaram uma narrativa para acusar, sem provas, cinco garotos inocentes, entre 14 e 16 anos de idade, todos pobres e negros. Uma das maiores injustiças cometidas pelo sistema judiciário daquele país.

É fato que todos temos responsabilidades sobre a face da Terra, mas alguns de nós detêm certo nível de poder que exige um cuidado redobrado quando fazemos uso desta prerrogativa. Em referência aos nossos exemplos, se jornalistas, precisamos ter muito cuidado ao relacionar uma pessoa a um fato. Jamais esta associação pode ser desleixada, leviana, apressada. Nossas palavras têm a capacidade de destruir reputações, levando a vida de uma pessoa à ruína. Igualmente, se trabalhamos com o sistema judiciário, independentemente de nossa posição hierárquica, jamais podemos agir com negligência ou ceder a pressões externas, pois um julgamento equivocado pode cercear a liberdade de outro ser humano.

O leitor deve estar pensando: mas isso acontece desde que o mundo é mundo; o que podemos fazer?

Pois bem, como cidadãos que buscam o autoaperfeiçoamento, o primeiro passo é não julgar, não apontar o dedo, não colocar o outro para “escanteio”. Isso é muito fácil de acontecer, não é? Certas vezes ouvimos um boato sobre um amigo e aquilo nos choca. A princípio estranhamos, mas em vez de tentar averiguar a verdade, processo trabalhoso, é mais simples isolar aquela presença que agora é incômoda. “A vida resolve.” Será?

O segundo passo é acolher, ter empatia. Aliás, opinião pessoal, o maior desafio da nossa geração neste século é desenvolver plenamente este sentimento, eliminando de uma vez nossos traços persistentes de preconceito e intolerância. Precisamos ser intolerantes com a intolerância. Claro, sem violência, mas com entendimento e sabendo cativar os núcleos sociais em que habitamos.

Por fim, o terceiro passo é agir. Veja, não basta defrontar-se com a injustiça e contestá-la ao longe. É necessário fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que o injustiçado, comprovada a sua inocência, possa ter condições de ser ajudado a reerguer-se. Isso às vezes se inicia com uma mensagem, uma ligação, um gesto de carinho, uma pequena lembrança de que aquela pessoa é querida e alguém dela se lembra. E, claro, orientações e mecanismos eficazes para desfazer ou minimizar o julgamento injusto devem ser postos em pauta.

Numa definição simplista, Christian Dunker, psicanalista e professor da USP, disse em um vídeo em seu canal no YouTube que uma pessoa é madura, adulta, quando consegue reconhecer os conflitos sociais e pessoais e não desistir do mundo, nem de si mesma. Adulto é aquele constantemente rodeado pelo conflito e que sabe viver com ele, pois tem a convicção de que os problemas não desaparecerão do dia para a noite, num passe de mágica, mas precisam ser gerenciados.

Dunker também afirma que o adulto é aquele indivíduo com uma capacidade de percepção ampliada. Ou seja, entende que no intervalo de uma vida há grandes e pequenos problemas e sabe diferenciar a importância de cada um, para que não se tornem maiores do que realmente são.

Portanto, pensemos bem antes de vestir-nos de inquisidores. E se presenciamos uma injustiça, façamos o que estiver ao nosso alcance para ser úteis e desfazê-la. Finalizo com o grande Martin Luther King Jr.: “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar.”


*Publicado na RIE - Revista Internacional de Espiritismo, edição de julho/22, na seção PONTO DE VISTA.

Nenhum comentário:

Agradecemos sua visita e seu comentário!
PS: Se necessário, o autor responderá.