Donos da Verdade


– Orson Peter Carrara

Se há um equívoco humano onde costumamos nos perder intensamente, com graves prejuízos para os ideais que julgamos lutar em favor, é nos colocarmos como donos da verdade.

            É quando começamos a achar que somos imprescindíveis. É quando achamos que nosso ponto de vista é o mais acertado e deve ser aceito por todos. É exatamente quando nos colocamos na posição de impor ideias ou comportamentos, esperando adesões sem questionamentos. É aí que nos perdemos intensamente e prejudicamos os progressos do conjunto. É que deixamo-nos fascinar pela vaidade, pela transitoriedade precária de um cargo ou pela suposta e tola noção de superioridade e proteção que julgamos possuir.

            São conhecidos os prejuízos históricos de tais comportamentos em todas as épocas da humanidade. Nem é preciso citar qualquer exemplo, mas o façamos apenas para reforçar a presente abordagem. Caifás, Pilatos, Hitler, entre outros personagens do passado e do presente estão entre tais casos, de nomes famosos ou conhecidos e mesmo entre anônimos na realidade e intimidade de empresas e famílias. Sim, tais casos lamentáveis estão nos esportes, na política, nas artes, nas religiões, nas profissões, nos relacionamentos familiares ou não e mesmo nos diferentes grupos de diferentes ideais. Inclusive no ambiente do movimento espírita, infelizmente.

            Ocorre dizer, por oportuno, que a Doutrina Espírita nada tem a ver com isso. Isso é consequência de nossa imaturidade ou tentativa desesperada de resolver as coisas sob o nosso limitado e estreito ponto de vista. Imaturidade que ainda guarda os largos conteúdos do egoísmo, causa que articula a ambição, a inveja, o ódio e o ciúme, entre outros males. Ciúme e inveja, esses vermes roedores da paz humana. Para que? Eles juntos, articulados pelo egoísmo, perturbam as relações sociais, provocam divisões e destroem a tranquilidade e a segurança, conforme comenta o lúcido Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, após a resposta dos Espíritos à questão 917 de O Livro dos Espíritos.

            Se trouxermos, então, tal questão e tais prejuízos à intimidade de nossas atividades espíritas, já são conhecidos os danosos resultados.

            Não somos donos da verdade, não somos donos de ninguém. Nossa opinião, nosso ponto de vista é apenas um ponto de vista pessoal, fruto de nossa experiência pessoal que é diferente da experiência do outro, que não pode ser desprezada.

            Por que desmerecemos o esforço alheio, porque tentamos paralisar iniciativas alheias? Porque, finalmente, desejamos impor nossa vontade?

            Tudo isso é fruto de nossa pequenez. Diante da proposta lúcida e grandiosa do Espiritismo, alicerçado no Evangelho de Jesus, iniciemos desde já o esforço de melhora de nós mesmos e não dos outros...

            Vale lembrar André Luiz, Espírito, no livro Conduta Espírita1 (edição FEB, psicografia Chico Xavier): “(...) Suprimir toda crítica destrutiva na comunidade em que aprende e serve. A Seara de Jesus pede trabalhadores decididos a auxiliar (...)”.

 


1 -  Capítulo 20 – Perante os companheiros, páginas 77 a 79 da 7ª edição.

Desserviço ao Espiritismo

 – Orson Peter Carrara

Quem estuda e conhece os fundamentos da Doutrina Espírita sabe seu significado e importância em favor da Humanidade. Isso gera uma consciência enorme de responsabilidade, convidando-nos a posturas de retidão, humildade e principalmente comprometimento com a causa espírita. 

Não é preciso alongar-se nesse parágrafo, de vez que as orientações são claras, estão definidas e precisamos vive-las. Eis o desafio constante do cotidiano. Corre-se, entretanto, o risco de perder-se essa noção, face às fragilidades pessoais que todos trazemos. É quando prestamos um desserviço ao Espiritismo, prejudicando a nobre causa, em situações ainda tão comuns entre nós:

 a) Quando nos colocamos no pedestal da condição de infalíveis, orientadores sábios ou solucionadores de todas as dificuldades, esquecidos de nossa própria fragilidade;
 b) Quando nos isolamos da convivência com outros grupos e nos fechamos na pretensa posição de quem tudo sabe, esquecidos do tanto que ainda precisamos aprender; 
 c) Quando fugimos da humildade e permitimos que a vaidade nos conduza o comportamento, assumindo posições de pretensa superioridade que é incompatível com nossa própria realidade de mendigos espirituais; 
 d) Quando criamos ou estimulamos seguidores para nós, condicionando-os às nossas ideias, sempre limitadas, como bem próprio da condição humana, e pior, impedimos que cresçam por si mesmos, criando enormes responsabilidades para o futuro;
 e) Quando somos pródigos como médiuns, para impressionar, em dar informações sobre o passado ou futuro das pessoas que nos procuram em busca de conforto, esquecidos igualmente de nossa cegueira e limitação no alcance das realidades espirituais;
 f) Quando igualmente fornecemos detalhes de supostas perseguições espirituais de pessoas enfermas ou perturbadas, que precisam antes de alguém que apenas as ouça, distorcendo o nobre papel de consolador que o Espiritismo para todas as criaturas;
 g) Quando tentamos adaptar o Espiritismo ao nosso acanhado e limitado ponto de vista, introduzindo práticas incompatíveis com a lógica e serenidade da prática espírita, desconhecendo a dinâmica da própria vida e suas leis;
 h) Quando nos fanatizamos, desejando converter pessoas ou impondo nossos equivocados conceitos, esquecidos da liberdade de todos que devemos respeitar;
 i) Quando deixamos de estudar e opinamos conforme nosso estado emocional, sem refletir naquilo que estamos dizendo, agredindo e machucando pessoas e pondo a perder iniciativas que levaram décadas para se solidificarem;
 j) Quando nos apegamos a cargos, quando desejamos ser simplesmente obedecidos ou quando achamos que somente nós sabemos e aí nos perdermos em subestimar esforços alheios, esquecidos da potencialidade que está em todos os seres;
 k) Quando caímos na crítica contumaz a tudo e a todos, como se fossemos donos da verdade, esquecidos do respeito que nos devemos mutuamente;
 l) Quando exploramos, procuramos tirar vantagens, enganamos, manipulamos, distorcemos para fazer valer nosso ponto de vista... 

 A lista não termina aí. Se ficarmos penando, acharemos mais, claro. É bem próprio de nossa condição ainda de aprendizes da ciência de viver. Com uma doutrina maravilhosa à nossa disposição, vençamos essa tendência movida pelo orgulho que ainda nos caracteriza. Atendamos antes aos apelos da fraternidade. 

Dada à nossa condição de aprendizes, estamos todos sujeitos a falhas e equívocos. O próprio articulista aqui escreve antes para si mesmo, procurando em si mesmo vacinas de atenção para não cair nessas armadilhas tão comuns, tão diárias de todos nós, que, em síntese, prestam antes um desserviço ao Espiritismo, nobre e extraordinária Doutrina enviada ao planeta para que seus habitantes conheçamos a sabedoria das Leis Divinas, onde o amor é a essência, onde só encontraremos a felicidade e paz autênticas, quando nos respeitarmos...

Não se deixe enganar


por Orson Peter Carrara


Se você se sente perturbado, angustiado, necessitado de orientação e busca respostas ou ajuda, fique atento. Nem sempre essa ajuda será oferecida por pessoas honestas ou comprometidas com o bem-estar do semelhante. Por ignorância (não no sentido pejorativo, mas sim no sentido de não saber mesmo), despreparo ou más intenções mesmo (como infelizmente tem ocorrido até com certa frequência), muita orientação oferecida se transforma em desdobramentos lamentáveis, com prejuízos emocionais e psicológicos de expressão na vida de muita gente.

Ao procurar um centro espírita, por exemplo, para pedir ajuda ou buscar respostas, preste atenção. Se a pessoa que te atender te amedrontar, te assustar, ameaçar, chantagear ou mesmo te cercar de informações esdrúxulas, detalhando seu passado ou seu futuro e até fizer previsões ou mesmo indicar perseguições espirituais, esqueça! Isso não é uma orientação espírita. O grupo que você foi pode até estar preparado, pode desfrutar de bom conceito, mas a pessoa que atendeu está completamente despreparada ou não foi bem orientada. Essa pessoa está usando pontos de vista pessoais e não conhece o Espiritismo.

O serviço de atendimento fraterno de uma instituição espírita ou mesmo qualquer pessoa chamada de espírita que você procure para conversar e pedir orientação, não existe para te assustar ou te ameaçar. O diálogo com qualquer pessoa de bom senso deve primar-se pela ordem, pelo respeito mútuo, numa análise ponderada, sem uso de argumentos ou citações que piorem a situação.

Ninguém tem o direito de ameaçar, explorar, ditar procedimentos, exigir. Podemos sugerir, claro, o que não significa que será aceito, o que se enquadra na liberdade individual da escolha a ser feita. Portanto, se você está diante de pessoa que ameace, ordene, exija ou tente qualquer tipo de exploração, esqueça. Isso não é orientação espírita. Esse não é um espírita. Isso contrasta totalmente com a orientação espírita.

Num centro espírita sério não há revelações do passado ou do futuro, não há previsão de datas ou acontecimentos, não há consultas a torto e direito (usando expressão popular) aos espíritos para as mínimas questões que nós mesmos podemos discernir ou resolver. Aliás, dependência de espíritos é outro equívoco que você pode prestar atenção. Não temos que seguir pessoas, médiuns ou espíritos, temos que seguir a Jesus, o único infalível que pisou neste planeta.

Se você perceber que há dependência de tal médium, de tal espírito, isso deixa de ser prática espírita. Poderá ser prática mediúnica, mas não espírita. O fenômeno pode ser real, mas deixa de ser espírita, pois que o fenômeno espírita se prima pelo desejo único de auxiliar as pessoas, sem qualquer tipo de ritual ou dependência de médiuns ou espíritos, atendentes ou palestrantes, todos instrumentos da Bondade Divina, mas livres para escolher caminhos de equívocos, aos quais responderão pelos desdobramentos advindos, no devido tempo.

Cuidado e prudência, pois. E você, naturalmente, vai ser perguntar: Mas como vou saber a quem procurar com segurança?

É simples e fácil: basta observar com atenção. Qualquer prática que traga em seu contexto ausência do bem e mistura de personalismo, ou indique malícia, exploração de qualquer tipo ou mesmo imposições e até mesmo previsões e também informações fáceis sobre passado e futuro, esqueça. Isso não é prática espírita. Isso é mediunismo sem responsabilidade.

E se exigir que você faça algo, seja um pagamento ou um comportamento, afaste-se. Isso não é Espiritismo. Pode ser o que for, mas não é Espiritismo. Espiritismo é simplicidade, fé, fraternidade. Se não houver bondade com simplicidade, está manchado pelo egoísmo humano que busca outros propósitos. 

Não se deixe enganar, pois. Busque ajuda sempre precisar, com quem lhe mereça confiança. Sempre que houver exigências ou imposições, desconfie.  Busque sim, um grupo sério, espírita ou de qualquer outra crença, onde haja sinceridade e desejo do bem. Isso é o que importa. 

Nenhum de nós pode se colocar no pedestal de orientadores. Somos todos aprendizes, desejando aprender uns com os outros. Toda vez que alguém se coloca na posição de sábio e infalível, pronto, já começou aí sua derrocada. Se encontrar alguém assim, ele é digno de nossa compaixão e precisa de preces, pois está se perdendo na própria vaidade.

Não temos que seguir pessoas... Mas seguir ao Cristo!


- Orson Peter Carrara

Pessoas humanas somos falíveis, sujeitos a equívocos e distrações, seduzidos muitas vezes pela vaidade ou pelas variadas paixões, manipulados por vontades alheias ou conduzidos por impressões e imperfeições que tanto nos caracterizam, que nos dão visão limitada e bem pequena da realidade que nos cerca, bem como dos objetivos maiores nas ocorrências e acontecimentos.

Isso vale para tudo, considerando nossa condição de aprendizes, onde muitas vezes o comportamento caracteriza-se incoerente com as informações já disponíveis.

Em considerando o movimento espírita (este composto por seres humanos adeptos do Espiritismo), que é uma representação pálida da Doutrina Espírita que o motiva, dada nossas fraquezas e limitações, carências e interpretações ainda repletas de nossas distorções pessoais e coletivas, o raciocínio é o mesmo.

Palestrantes, dirigentes espíritas, médiuns ou tarefeiros de qualquer natureza, constituímos imenso exército de treinandos para a sabedoria de viver, exercitando ainda a conquista de virtudes. Portanto, igualmente falíveis nessas atividades, em desdobramento natural da condição humana.

Não temos, pois, que seguir pessoas. Temos que seguir o Cristo. É um equívoco elegermos pessoas, sejam dirigentes ou palestrantes, médiuns ou outros tarefeiros de instituições espíritas, para seguir. Sujeitamo-nos a decepções variadas, sem contar os prejuízos das interpretações que elejam como diretrizes – conforme nossas limitadas percepções humanas e que qualquer pessoa carrega consigo – e que podem estar completamente equivocadas, já que fruto das interpretações pessoais, nem sempre condizentes com a realidade.

Seguir o Cristo é nosso dever. Ele é o modelo e guia. E em termos de Doutrina Espírita, o raciocínio é o mesmo. Lideranças, médiuns e palestrantes podem estar completamente equivocados em suas ações. A segurança está em seguir a Codificação de Allan Kardec, para não cairmos nas raias do fanatismo e do ridículo. Isso constrói estabilidade, segurança, harmonia. Seguir pessoas cria instabilidades, desarmonia, insegurança. A história aí está para exemplificar isso, na história humana e, por consequência, também no movimento espírita. Daí as confusões reinantes. Pessoas... somos falíveis...