Hipocrisia e mentira

 


Desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever 

 Orson Peter Carrara

 

Existem situações que nos colocam, usando expressões vulgares e populares: “numa saia justa” e “contra a parede”. Ficamos naquela situação bem constrangedora: “falo ou não falo”, ou “denuncio ou não?” e mesmo “guardo comigo ou compartilho o que vi e sei o que ninguém viu ou ficou sabendo?”.  São situações comuns do cotidiano diante de escândalos variados, na vida social ou familiar, manipulações ocultas e lesivas a variados interesses e mesmo leviandades e mentiras que tivemos oportunidade de saber ou descobrir. O que fazer com essas questões?

Desmascaramos a hipocrisia, a mentira? Ou deixamos passar? É engraçado que muitas vezes até provas temos, contra pessoas consideradas inatingíveis. São os bastidores diversos que ninguém conhece, mas um de nós ou um grupo teve oportunidade de saber ou descobrir.

Não é realmente muito constrangedor? Especialmente levando-se em conta tratar-se, em inúmeros casos, de pessoas de nosso relacionamento ou muito conhecidas, consideradas no meio em que atuam. Até mesmo no meio familiar isso acontece, onde a maledicência e a falsidade também costumam frequentar. Se ampliarmos para os demais segmentos, não é surpresa para ninguém o que já ocorre, agravado com as chamadas fake news.  

Nada de assustador até aqui, levando-se em conta nosso ainda precário estado moral do planeta. E nele estamos porque sintonizamos com seu estágio atual.

Todavia, após tais considerações, importante adentrarmos para a razão da presente abordagem. Primeiro: a frase que a intitula está identificada no parágrafo seguinte e inclui a pergunta que acentuamos acima, com alguns exemplos. Acompanhe a seguir.

A frase é do Espírito São Luiz, data de 1860, e está no capítulo 10 – Bem Aventurados aqueles que são misericordiosos – de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 21. Referido item é uma pergunta: Há casos em que seja útil revelar o mal de outrem? E na resposta dada pelo espírito autor, está a frase usada como título. Numa resposta breve, de poucas linhas, a sabedoria que alinha a prudência com a firmeza moral.

A resposta na íntegra indico ao leitor buscar na obra citada, mas separo aqui, com objetivo didático, trechos parciais do texto, a fim de embasar a conclusão do assunto:

1 – Essa questão é muito delicada, e é aqui que é preciso apelar para a caridade bem compreendida. – Note que, apesar da dificuldade com tais questões, a sugestão de apelo à caridade é muito expressiva. Denúncias ou desmascaramentos, informações reveladoras contra a hipocrisia e a mentira, não dispensam a caridade em toda sua amplitude. É preciso muito cuidado e prudência para que o desejo de humilhar alguém, rancores guardados ou outras pretensões agressivas e egoísta, não se sobreponham sobre o interesse coletivo e real objetivo de uma denúncia. Note-se a amplidão nesse início de resposta à questão. É preciso refletir muito.

2 – É preciso preferir o interesse da maioria ao interesse de um só. – Será que as situações em que julgamos ser necessário agir estamos pensando no interesse coletivo ou estamos pensando na auto projeção pessoal? A frase exige também muita reflexão, inclusive colocando dentro do contexto completo da resposta, que novamente recomendo ao leitor ler atentamente.

3 – Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever, porque vale mais que um homem caia, do que vários se tornarem enganados ou suas vítimas. – Perceba-se a clareza de duas condicionantes: “segundo as circunstâncias” e “pode ser um dever”. No segundo caso, a afirmativa está condicionada ao “pode”, que requer minuciosa análise, o que também acontece com o início da afirmação: “segundo...”.

4 – Em semelhante caso, é preciso pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes. – Aqui está o segredo da análise bem ponderada e sugerida. Bem desafiador avaliar a dimensão de uma denúncia ou de um enfrentamento à hipocrisia e à mentira. Até que ponto isso será útil? Até que ponto temos referido direito, segundo as circunstâncias? Quais os desdobramentos de uma ação que desmascare uma situação ou uma pessoa e mesmo um grupo? É nesse entrechoque de opiniões e análises que amadurecemos nos difíceis processos do relacionamento humano.

Notem os amigos que a afirmação que dá título na abordagem e que está no capítulo e item citados, acrescenta que “pode ser um dever”, não afirmando que é, mas que pode ser. Como identificar a linha tênue desse limite? Linha que apresenta igualmente o apelo à caridade, mas que informa igualmente que “(...) porque vale mais que um homem caia, do que vários se tornarem enganados ou suas vítimas (...)”.

É preciso muito bom senso mesmo, um alto grau de discernimento, para não nos deixarmos levar por paixões – muitas vezes levianas e agressivas nessas ações –, para que sejamos justos sim, sem nunca esquecer a misericórdia.

O amor é Lei de Deus em tudo. A lei divina é justa, mas igualmente misericordiosa. Não nos esqueçamos disso.

Quem de nós já não se viu em situações assim... É o bom senso que ainda precisamos desenvolver através justamente dessas experiências desafiadoras que nos habilitam à melhor capacidade de lidar com elas.  


 Nota do autor: 

Após a divulgação do artigo, uma observação muito pertinente nos foi endereçada, que aqui incluo pela oportunidade da observação:


Orson parabéns pelo artigo, gostei muito. Mas é importante também que quando há riscos a terceiros ou a instituição que ajuda muitas pessoas, não fiquemos calados. O silêncio dos bons pode ser conivência com os maus, Kardec adverte que os maus dirigem e governam muitas vezes pela omissão dos bons.  Um forte abraço querido amigo 

Allan Kardec Pitta Veloso, o neto do João Leão Pitta, de Itanhaém (SP). 


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