Juntos no inferno?



 

Para ficarmos juntos no inferno – Orson Peter Carrara

 

Já sabemos que o chamado inferno não é um local, mas um estado consciencial. Amarguras, desejos de vingança, inveja, ciúme, intrigas e manipulações que alimentamos transformam a vida naquilo que podemos denominar de um inferno emocional, um estado de intensa perturbação e sofrimento. Aquele inferno de sofrimento eterno, de diabo e caldeirões ferventes, isso não existe -  é imaginação humana.

Referimo-nos aqui aos tormentos que a inveja e o ciúme produzem. Ou, da mesma forma, as culpas e ainda os sentimentos de vingança ou de controle sobre a vida alheia.

A afirmação do título é pesada, forte, mas ela foi proferida num diálogo, dentro de uma série, que é longa (são 90 episódios de 30 minutos), numa produção impecável e numa história muito envolvente. A produção não aborda a questão espiritual, é uma trama apenas de manipulações e certa agressividade, refletindo a realidade do cotidiano humano.

Motivo-me a abordá-la porque a saga dos personagens faz refletir profundamente sobre os dramas humanos. Indo além das cenas, episódios e da própria história, pode-se aplicar muito raciocínio doutrinário em diferentes campos do conhecimento espírita.

Apesar de longa, como já dito, a produção coloca as situações com praticidade e ao mesmo tempo vários temas de interesse social da convivência humana. As situações vividas vão tratar de situações bem próprias como suicídio, orfandade, abandono, separação, fragilidade dos filhos, dependência química, tráfico, chantagem, poder, ambição, crimes, domínios mediante exploração, riqueza, ciúme, inveja, traição, mas especialmente chantagens e pressões. Mas ali também estão a hipocrisia, a falsidade ao lado também da honestidade, do amor sincero, da retidão, além de paixões descontroladas, doentias.

Incrível! Numa história que prende a atenção, lance a lance, dominando o interesse do telespectador, pois que as carências e fragilidades emocionais também estão presentes com grande intensidade, tratando de insegurança, da iniciativa e mesmo da proteção, além da imensa sede de poder, também refletindo os dias atuais.

A série é de produção turca, um drama-romance, de 2016, exibido na Turquia, como telenovela, já disponível com dublagem, no youtube. E chama-se: Asas de Amor, que o leitor pode pesquisar. Para entender o título que aqui usamos, considere um amor doentio que tenta a todo custo dominar outra pessoa.

E no mesmo dia que assistimos o último episódio, durante a realização do Evangelho no Lar, deparamo-nos com esta pérola:

 

Concede-nos, ó meu Deus, forças para apagar de nossa alma todo ressentimento, todo ódio e todo rancor. Faze que a morte não nos surpreenda com desejos de vingança no coração. Se te aprouver tirar-nos hoje mesmo deste mundo, faze que nos possamos apresentar, diante de ti, puros de toda animosidade, a exemplo do Cristo, cujos últimos pensamentos foram em prol dos seus algozes. 

 

Referido trecho, um tanto esquecido, está em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 28, item 3-V, inserido no profundo estudo que Kardec faz sobre o Pai Nosso, ali comentando sobre o Perdoai as nossas dividas...

A conexão do item é perfeita para as situações vividas pelos personagens, mas especialmente na conclusão, quando a situação leva a pensar nos desdobramentos pós morte, com a questão da obsessão e das intensas perturbações espirituais na vida espiritual.

Refletindo realidades do cotidiano humano, das diversas paixões doentias, o autor foi muito criativo e intenso, a interpretação dos atores magnífica, a história envolvente. Mas o melhor mesmo fica para as reflexões durante as exibições.

Reflexões que vão desde os desgastes de um casamento aos crimes, entre tantas situações acima narradas, destacando-se os abusos de poder.

Eu fui assistindo gradativamente, mas apesar das horas consumidas, gostei muito.

Fica a indicação....

 Não só pelo lazer, mas pela profunda reflexão 

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