Uma horinha com Deus

 



Uma história tranquila de transição – Orson Peter Carrara

 

Entrevistei recentemente a psicóloga e professora de idiomas, Annegret Feldmann Martinot, de Bragança Paulista (SP), para a revista eletrônica O Consolador, que você pode ver na íntegra pelo link que destaco no final do texto.

 

Uma das respostas, específica sobre a influência da mãe, ficou muito longa e exclui da entrevista, mas achei muito válido republicá-la em separado. E trago aqui para apreciação dos leitores. Pelo aspecto histórico de vida de uma família, merece ser lida. No final do texto reproduzo também pequena reflexão produzida pela mesma mãe e encontrada em seus guardados após a desencarnação. Dois amigos levaram o texto para transformação em música pela IA. Tudo está disponível no final do texto, mas é importante que você conheça antes a história familiar abaixo descrita na resposta da entrevistada.

Veja:

Como seus pais influenciaram em sua fé? E como isso foi administrado depois de conhecer o Espiritismo?

 

Meu pai era belga e minha mãe, alemã. Os dois se conheceram no Brasil, em São Paulo, após o término da segunda guerra mundial. Meu pai veio para o Brasil fugindo da guerra. Minha mãe saiu da Alemanha aos dois anos de idade, em 1924 com os pais. Meu avô, que era mestre cervejeiro com diploma, veio com a família em busca de novas oportunidades no período pós primeira guerra mundial. Primeiramente foram para Argentina, onde já vivia uma irmã da minha avó, e depois vieram para o Brasil, onde passaram por Corumbá, Curitiba, Santos e finalmente São Paulo. Minha mãe tinha uma vida confortável e tranquila. Era filha única com uma ligação muito profunda com o pai. Pelo menos esta é a minha impressão, por alguns relatos dela.

 

Meus pais se casaram em 1950 na igreja luterana em São Paulo e tiveram quatro filhos, eu sou a terceira filha. Meus dois irmãos mais velhos nasceram no Paraná e no Rio Grande do Sul. Meus pais foram para a região como colonos. Talvez meu pai queria se afastar de grandes centros, por ser um fugitivo de guerra e assim procurar viver mais .... ‘anonimamente’. Mas de alguma maneira voltaram para São Paulo e eu e minha irmã mais nova nascemos em São Paulo, capital.

Meu pai faleceu em 1966, vítima de um acidente automobilístico, deixando minha mãe viúva com quatro filhos menores, o mais velho com 15 anos e a mais nova com 7 anos de idade. Logo no ano seguinte meu avô materno também faleceu. Oito anos após o falecimento do meu pai, meu irmão do meio também faleceu em um acidente automobilístico aos 21 anos de idade.

Nesta época nós já morávamos em Guarulhos, onde havia uma igreja luterana com uma pequena comunidade predominantemente constituída de alemães e descendentes. Os cultos aconteciam em datas marcadas, celebrados por pastores de outras comunidades, já que não havia um pastor específico para a nossa comunidade. Não me lembro exatamente, mas os cultos eram celebrados em língua alemã e algumas vezes em português. Acho que a partir de meados dos anos 80, Guarulhos passou a ter um pastor dedicado exclusivamente à comunidade local. Nós três, minha mãe, minha irmã e eu sempre participávamos das atividades na igreja

Meu pai vinha de uma família católica. Segundo relatos da minha mãe, a mãe dele o obrigava a ir à missa contra a sua vontade, por isso ele mantinha uma distância da igreja. Meu avô paterno na Bélgica se separou da minha avó, causando uma cisão na família. Minha tia, irmã do meu pai, nunca mais falou com o pai dela. Sempre segundo relatos da minha mãe.

Aos 21 anos de idade tive oportunidade de estar na Bélgica e conhecer minha tia, irmã do meu pai e na ocasião minha mãe me orientou que eu fosse conhecer o meu avô, que ainda era vivo, mesmo que minha tia não aprovasse este encontro. Minha avó paterna já era falecida. Meu pai tinha um tio que era padre e foi o único membro da família dele que veio ao Brasil, trabalhando em um navio. Minha mãe entrou em contato com ele e ele me buscou para este encontro, que foi profundamente emocionante para nós dois.  Um ponto interessante e que mostra o caráter e a sensibilidade da minha mãe, que naquela época ainda não conhecia pessoalmente ninguém da família do meu pai, exceto este tio. Este tio era um primo por parte de pai, portanto da parte da família com quem minha tia não conversava.

Posteriormente minha mãe, já perto dos 70 anos de idade teve oportunidade de estar na Bélgica e conseguiu aproximar os dois primos (minha tia e o primo padre), que acabaram conversando um com o outro. Minha mãe ficou muito feliz com isso e em diversos momentos relatava novamente este evento tão importante e para o qual a contribuição dela com certeza foi fundamental. Não sei da vida religiosa ou espiritual dos meus avós maternos.

Fiz este relato acima para mostrar estes aspectos da vida da minha mãe. Ela sempre manteve contato com a família do meu pai, após o falecimento dele, mesmo sem conhecê-los pessoalmente, exceto o tio padre. De alguma maneira ela ‘buscava’ a paz e se empenhava neste sentido. Da mesma forma,  ela sempre manteve o contato com a família materna na Alemanha por meio de cartas, mesmo sem conhecê-los pessoalmente. Graças a ela , até hoje mantemos contato com a família paterna na Bélgica e com a família materna na Alemanha. Foi o exemplo que ela deixou.

Para mim, a lição mais profunda de vida que minha mãe deixou foi o ‘exemplo’. Eu sempre vi minha mãe procurando fazer o seu melhor, com profundo respeito aos mandamentos divinos, em todos os dias da vida. Minha mãe nunca me disse “filha eu te amo”. Que eu saiba, nem aos meus irmãos. Mas eu nunca duvidei do quanto ela nos amava!

Tudo isso marcou profundamente minha vida, ela nos deixou um legado de amor ao próximo, respeito e ética. Eu percebo e vejo isso nos meus irmãos também!

Minha mãe sempre respeitou as religiões e aqui eu novamente relato uma passagem para exemplificar: durante muitos anos minha mãe teve uma ajudante em casa, Dona Dorcas, que era adventista. Dona Dorcas morava com o marido e quatro filhos muito próximo à nossa casa. Minha irmã e eu tínhamos mais ou menos a mesma idade das meninas. Muitas vezes elas nos chamavam para irmos juntas ao culto nos domingos à noite. Minha mãe nunca proibiu. E assim eu acabei participando com certa frequência de atividades na igreja adventista. Nós, as filhas, temos contato até hoje.

 

Assim, quando comecei a frequentar um instituto espiritualista e depois uma  casa espírita, minha mãe também não teve nenhuma reação contrária. De alguma maneira, ocasionalmente eu continuava frequentar os cultos na igreja luterana, em datas festivas! A transição foi tranquila, pacífica e aconteceu de maneira calma e gradual ao longo de aproximadamente 10 anos.

 

Desse histórico familiar, o que mais me marcou foi o exemplo de vida da minha mãe e a nossa ‘vulnerabilidade’ como seres humanos. Nossa vida é como um fio, de um instante para o outro, tudo pode acabar!

 

Poema de autoria da mãe, encontrado em seus guardados após a desencarnação

 

   U M A        H O R I N H A       C O M         D E U S     . . . . . . . .

      Posso ter uma horinha com Deus quando estou
      na fila do ônibus ou numa sala de espera ou em
      qualquer outra circunstância: quando tenho que
      esperar por alguém, quando não consigo dormir.
      É bom saber que a qualquer instante posso me
      comunicar com Deus e pedir a sua orientação.


      Meu Deus, quero aproveitar estes minutos de
      espera para lembrar que não estou só, que posso
      refazer as minhas forças pela oração, que posso
      pedir ajuda e consolo, na certeza de que não
      serei deixada sem resposta. Quero permanecer
      sempre em Tuas Mãos.

      Suplico pelo próximo que está encontrando
      dificuldade para acertar na vida. Não posso
      força-lo a subordinar-se à Tua Vontade, mas
      peço que me guies, para que a minha atitude
      o ajude a aproximar-se de Ti e a reconhecer
      que não pode haver felicidade sem ser em Ti.


      Ursula Martinot (1922-2010)

 

Músicas feitas pela IA com base no texto acima:

 

Duas versões:

1 - Clique no link abaixo para ouvir a primeira versão.

https://suno.com/s/xLzVvYlYJMgSnSj2 - por gentileza do amigo Edson Montemor, de Rio Claro (SP)

  

2 - Clique aqui mesmo no quadro abaixo para ouvir a segunda versão




por gentileza do amigo Edvaldo Almeida, de São Carlos (SP).

  

Link da entrevista na íntegra (onde não está incluída a narrativa acima)

https://www.oconsolador.com.br/ano19/953/principal.html - só clicar ENTREVISTA (que é a primeira matéria da edição, com a foto de Annegret.

Ano 19 - N° 953 - 14 de Dezembro de 2025

 

 

 


Nenhum comentário:

Agradecemos sua visita e seu comentário!
PS: Se necessário, o autor responderá.