20/01/2011

Dona Kika


por  Orson Peter Carrara

Ela foi encontrada enroscada num portão, com menos de 2 meses de idade. Machucada, faminta, suja, traumatizada. Foi trazida para casa por um dos filhos e a namorada. Nada entendo de raça de cães, só sei dizer que era muito feia, uma filhote barbuda inclusive.
                
Nossa atitude, minha e da esposa, foi de recusa imediata. Já tivemos um caso traumático com outro cão que, nada dócil, traumatizou a família face às dificuldades para cuidar dele. Depois que ele morreu, fizemos um acordo familiar para nunca mais termos animais em casa.
                
O filho prometeu que seria por aquela única noite, pois no dia seguinte levaria o animal para outra residência, o que realmente aconteceu. Mas naquela noite, quem é que dormiu? A filhote fez barulho durante toda a noite, inquieta pela habitação diferente. No di a seguinte, foi embora. Isso aconteceu de quarta para quinta-feira daquela semana de janeiro.
                
No sábado à noite, ao chegarmos em casa, nos defrontamos com o mesmo animal, agora limpo, mais cuidado. A pergunta foi inevitável e a resposta é que a outra família havia devolvido o animal, no que retrucamos também não desejar o cão em casa, especialmente em função dos acontecimentos anteriores e do acordo familiar firmado há alguns anos. Como era noite de sábado, a promessa foi de que na segunda-feira ela iria para o canil, caso não se conseguisse família que a adotasse.
                
No fim de semana o envolvimento dos filhos com o cão foi intenso e no final de domingo já a chamavam de Dona Kika. Na segunda-feira, minha pressão para o contato com o canil resultou que o funcionário da Prefeitura Municipal viesse buscá-lo na hora do almoço. Assinado o documento, o dócil e pequeno animal não resistiu aos braços do funcionário. No fechamento da porta traseira do veículo, com vidro, observei o pequeno cão e seu olhar de súplica, com a cabeça tombada, cortou-me o coração como uma lâmina que me cortasse o peito.
                
Naquela noite, ninguém dormiu. A família inteira chorou. Somou-se o remorso à saudade, o arrependimento à vontade de recuperar a convivência com o dócil animal. Na  terça-feira lá estava eu no canil, agora para buscar Dona Kika. Aí o coração partiu novamente, na verificação das condições do canil, repleto de cães de todas as raças, tamanhos e cores.
                
Quando nos ouviu a voz, a pequena filhote passou pelas pernas do funcionário que havia laçado outro cão, por engano, e pulou sobre nós, agora de alegria, de gratidão. Trouxemo-la de volta para casa. Um animal dócil, há um ano já conosco, descontraindo  a família, saudando a todos com imensa alegria e peraltice, diga-se de passagem, todo dia.
                
Apesar das peraltices próprias de um cão, é um animal dócil e resignado. Tornou-se amiga de todos, que a querem bem e vibram de alegria pela sua presença sempre carinhosa. Muito diferente do antigo cão, D. Kika faz as alegrias e a descontração da família.
                
Conto essa história em minhas palestras, para risos do público que se diverte, especialmente pela dramatização incluída na narrativa, despertando manifestações da Sociedade Protetora dos Animais, do público em geral, inclusive por meio de e-mails enviando saudações à cachorrinha, cuja foto tive que exibir nas palestras, por pedido do próprio público, que solicitou essa inclusão.
                 
Incrível como pequenos acontecimentos trazem novos ares e ensinam tantas coisas. O sentimento do animais é um desses recursos que a vida usa para nos ensinar tantas outras coisas.  A vida é mesmo repleta de surpresas e acontecimentos, todos eles nos querendo dizer alguma coisa. Nunca imaginei que escreveria sobre ela, embora conte a história em palestras, mas este relato também foi a pedido de uma admiradora que se empolgou a com a história narrada na palestra e pode indicar estudos e reflexões para nosso próprio aprimoramento no tocante aos sentimentos.